Simões Filho (BA) – Aos 25 anos, Wellington Pacífico carrega na memória o som dos 25 disparos que calaram sua avó, a liderança quilombola Mãe Bernadete, em Simões Filho, na Bahia. O crime, ocorrido dentro da associação do Quilombo Pitanga dos Palmares há exatos três anos, não foi a primeira perda violenta do jovem, que já havia sepultado o pai, o ativista Flávio Pacífico, o Binho, em 2017. Hoje, sob a proteção do Estado, Wellington tenta transformar o luto em ferramenta e ingressou na faculdade de Direito para lidar com a impunidade que ainda ronda seu território.
Para marcar o aniversário da morte da ativista, familiares e apoiadores se reúnem nesta segunda-feira (17), às 9h, para uma missa na histórica Igreja do Bonfim, em Salvador. O ato religioso é também um clamor por respostas que o sistema de Justiça ainda deve à comunidade. Embora a apuração tenha avançado, a sensação de segurança continua distante para os moradores de Pitanga dos Palmares.
A engrenagem da Justiça
Até o momento, o desfecho judicial para a execução de Mãe Bernadete é parcial. Em abril, o Tribunal do Júri condenou o executor do crime, Arielson da Conceição dos Santos, a mais de 40 anos de reclusão. Marílio dos Santos, apontado como um dos mentores intelectuais do ataque, recebeu a pena de 29 anos e nove meses de prisão. Outros três réus aguardam o banco dos réus em um julgamento previsto para outubro, embora a data exata siga sob sigilo processual na Justiça baiana.
Wellington lembra que a avó passou os últimos anos de vida exigindo a elucidação do assassinato de Binho, um crime que também permanece sem solução definitiva, com suspeitos que chegaram a ser detidos e posteriormente liberados. A falta de resoluções definitivas gera o temor constante de novos episódios de violência contra quem assume a linha de frente da defesa da terra.
Cultura e preservação
Além da arena jurídica, a resistência da família assume contornos culturais. Jurandir Pacífico, filho de Bernadete, lidera os esforços para realizar um novo festival de arte quilombola, além de estruturar cursos de artesanato e uma cozinha solidária. O objetivo é evitar o esvaziamento das ações comunitárias após a perda de suas principais referências. O projeto busca obter fomento e políticas públicas que assegurem a sustentabilidade das atividades no quilombo.
Paralelamente, a luta pela regularização fundiária caminha em passos lentos. Reconhecido pela Fundação Cultural Palmares desde 2005, o Quilombo Pitanga dos Palmares ainda aguarda a titulação definitiva por parte do Incra, um processo travado por disputas de desapropriação de terras públicas e privadas, o que deixa o território exposto à pressão imobiliária.
Vulnerabilidade de gênero e raça
A violência que vitimou Mãe Bernadete ilustra um cenário nacional de vulnerabilidade para mulheres negras e lideranças tradicionais. Dados da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) revelam que, entre 2016 e 2024, ao menos 22 mulheres quilombolas foram assassinadas no país. Outras 33 sofreram ameaças diretas em um intervalo de apenas dois anos.
Ativistas apontam que a lentidão na demarcação de terras — que hoje alcança apenas 12,6% da população quilombola estimada no Brasil — potencializa os conflitos. Como resposta imediata, a Conaq estruturou um plano emergencial focado na proteção de mulheres que atuam na defesa de seus territórios, na tentativa de mitigar o medo estrutural que paralisa as lideranças locais.




































































































