Cariacica (ES) – O agronegócio nacional ostenta a marca de terceiro maior produtor de frutas do mundo, movimentando R$ 15 bilhões anualmente nas cadeias produtivas de manga, uva e maçã. Entretanto, a robustez econômica esconde uma engrenagem que se alimenta da fragilidade humana. Segundo o relatório Dinâmicas do Trabalho Assalariado Rural, essa riqueza é construída sobre um sistema de exploração persistente que inclui o adoecimento físico, a supressão de direitos básicos e o descarte ágil de trabalhadores rurais.
O levantamento concentrou observações no Vale do São Francisco, que abrange divisas entre Pernambuco e Bahia, e na Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul. O diagnóstico é direto: o setor trata a força de trabalho como um insumo descartável. Para Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, existe uma contradição ética insustentável. Enquanto os lucros chegam à casa dos bilhões, a riqueza não chega a quem maneja a terra, mantendo a vulnerabilidade histórica do campo como pilar de sustentação do próprio negócio.
A fragilidade da fiscalização estatal atua como um facilitador desse cenário. No Rio Grande do Sul, trabalhadores da maçã enfrentam jornadas de 16 horas sob temperaturas negativas. Já no Nordeste, a busca por metas agressivas força colhedores a restringirem o consumo de água e o uso de banheiros. O resultado é um adoecimento crônico que raramente aparece nas estatísticas oficiais, como o sistema de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). Estima-se que, no Vale do São Francisco, apenas uma de cada cinquenta intoxicações por agrotóxicos seja efetivamente notificada aos órgãos de saúde.
A precariedade estende-se à própria natureza dos contratos. Em 2024, dos mais de 117 mil vínculos formais registrados nas regiões analisadas, cerca de 60% foram encerrados antes de dezembro. A instabilidade é a norma: na Serra Gaúcha, o fluxo migratório — que inclui parcela expressiva de indígenas — é absorvido apenas pelo pico da colheita e, logo em seguida, dispensado. Em Pernambuco e na Bahia, o avanço da mecanização tem sido usado para reduzir postos de trabalho, com relatos de que máquinas substituem, em poucos dias, a produtividade que exigiria um mês de esforço de uma centena de pessoas.
A desigualdade também se materializa na folha de pagamento. A estrutura salarial reflete recortes de raça e gênero, com mulheres negras ocupando a base da pirâmide, recebendo, em média, R$ 1.449 mensais, contra R$ 2.494 pagos a homens brancos na mesma atividade. Com baixa escolaridade e sem contribuição previdenciária — condição de 52% dos trabalhadores rurais assalariados —, o futuro desse grupo é marcado por uma desproteção social que o atual modelo econômico, até o momento, ignora.












