Vila Velha (ES) – O cenário da educação inclusiva no Brasil apresentou mudanças significativas na última década. Entre 2013 e 2023, crianças e adolescentes com deficiência, autismo ou altas habilidades matriculados na rede pública registraram avanços no desempenho acadêmico, especialmente durante os anos iniciais do ensino fundamental. A diferença de aproveitamento entre esses estudantes e os alunos da educação regular diminuiu no 5º ano, um sinal de maior atenção das escolas às necessidades inclusivas.
O diagnóstico vem de um levantamento que tomou como base as informações do Saeb. Os números são claros: na avaliação de português do 5º ano, o índice de alunos da educação especial com nota satisfatória saltou de 20,7% em 2013 para 44,5% em 2023. Em matemática, o progresso foi igualmente expressivo, saindo de 16,9% para 33,9% no mesmo período. A distância em relação aos demais estudantes, que antes superava os 20 pontos percentuais, encurtou significativamente.
Entretanto, o otimismo encontra limites ao analisar as etapas finais da educação básica. A partir do 9º ano e no ensino médio, o cenário é mais preocupante. Nessas fases, o hiato de aprendizagem entre alunos com deficiência e estudantes da educação regular voltou a aumentar. Em matemática, por exemplo, os resultados para ambos os grupos no 3º ano do ensino médio permanecem em níveis críticos, com evolução mínima registrada desde 2017.
Maria Laura Gomes, autora do estudo, pondera que o levantamento reflete a trajetória daqueles que conseguiram permanecer no sistema. O recorte acaba omitindo a realidade daqueles que, por diversos fatores, acabaram evadindo da escola antes de chegar às etapas de avaliação, o que mascara a real dimensão das desigualdades enfrentadas.
Na prática, o sucesso da inclusão depende de investimentos diretos. A cidade de Gado Bravo, na Paraíba, ilustra esse esforço. Com uma população notável de surdos, o município estruturou uma coordenação específica para educação inclusiva. Hoje, ledores auxiliam os estudantes e o transporte adaptado garante que alunos com diferentes deficiências, incluindo cadeirantes, tenham acesso à sala de aula. A estratégia também prioriza a participação integral de todos os alunos com deficiência no Saeb, um processo que exige adaptação de provas e planejamento técnico.
Embora a participação desses alunos no Saeb tenha crescido — no 5º ano, passou de 61,6% para 74,4% em uma década — o acesso ainda é seletivo. Alunos com deficiência múltipla, por exemplo, possuem taxas de participação muito inferiores às de estudantes com altas habilidades, revelando que o sistema ainda tem dificuldade em integrar os casos que exigem maior suporte.
O desafio estrutural permanece urgente. A formação docente ainda é incipiente, com apenas 6,4% dos professores possuindo especialização continuada na área. Além disso, a acessibilidade física segue como um gargalo: uma em cada quatro escolas brasileiras não oferece qualquer tipo de adaptação estrutural. A mudança de paradigma defendida por especialistas é clara: a acessibilidade não deve ser uma resposta a um aluno específico que chega à matrícula, mas uma condição prévia e universal de todas as unidades de ensino.










