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Saúde

Duas em cada três mortes de bebês poderiam ser evitadas no Brasil

Por Redação / Agência Brasil
5 de maio de 2022
em Saúde
4 mins read
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O Brasil registra por ano 22,9 mil mortes de bebês de até 1 ano que poderiam ser evitadas se houvesse tratamento para doenças como diarreia. O risco aumenta com a queda da cobertura vacinal. Os dados são do Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância) que fez uma média dos números registrados entre os anos de 2018 a 2020.

A avaliação indica que duas em cada três mortes de bebês desta faixa etária poderiam ser evitadas no país com ações como vacinação, amamentação e acesso à atenção básica de saúde.

A pesquisadora do Observa Infância Patricia Boccolini lembrou que, em 2019, o Brasil perdeu o selo de erradicação de sarampo, por causa da queda na cobertura vacinal, inclusive para outras doenças. “A gente vem observando o aumento no número de casos, muitos deles evoluem para hospitalização”, disse em entrevista à EBC.

Patricia, que é vinculada ao Núcleo de Informação, Políticas Públicas e Inclusão (Nippis), informou que, no período de três anos, foram contabilizadas mais de 1,6 mil internações decorrentes de sarampo, número que não era registrado desde o início dos anos 2000. Em igual período, foram 26 óbitos de crianças abaixo de 5 anos por causa da doença. “A gente já estava há anos sem ter uma morte sequer por sarampo no Brasil”, completou.

O estudo do Observa Infância, que identifica as causas de mortes evitáveis entre os bebês, utilizou o cruzamento de grandes bases de dados próprias, do Programa Nacional de Imunização (PNI) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade, ambos do Ministério da Saúde.

“Nosso trabalho é perguntar a essas bases aquilo que a sociedade não pode ignorar: o que mata as nossas crianças? O que podemos fazer para evitar essas mortes?”, destacou Patrícia.

Imunização

O observatório procurou ainda avaliar a vacinação de crianças abaixo de 5 anos. Segundo a pesquisadora, foram analisadas informações de cada um dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros e foi possível concluir que há muita desigualdade na cobertura vacinal do país. “Essa desigualdade está relacionada, principalmente, com o acesso à atenção básica. Onde a atenção básica não chega, a queda da cobertura vacinal é mais acentuada”, apontou.

“À medida que a cobertura vacinal vem caindo nos últimos anos, onde tem uma melhor estrutura de atenção primária, esse número cai menos, ou seja, como é fundamental a atenção primária de saúde para manter a cobertura vacinal”, completou o pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) da Fiocruz, Cristiano Boccolini, que também participa do estudo.

O pesquisador acrescentou que mais da metade dos bebês mortos por ano poderiam ter sido salvos por um pré-natal adequado e uma boa atenção das gestantes no pós-parto. Cristiano defendeu ainda o fortalecimento de políticas públicas para promover a amamentação na primeira hora de vida e o aleitamento exclusivo nos seis primeiros meses, porque há uma relação direta com a prevenção de grande parte dos óbitos infantis.

“No estudo que eu fui coordenador, do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, a gente observou que 62% das mães conseguem alimentar os seus filhos na primeira hora de vida em 2019. Isso está aquém dos 80% que a OMS [Organização Mundial de Saúde] recomenda”, revelou o pesquisador.

Cristiano Boccolini destacou ainda a questão das propagandas que exaltam fórmulas que substituem o aleitamento materno.

“A gente tem uns gargalos que acontecem. Primeiro que tem um consumo excessivo de fórmulas infantis. A gente tem a indústria convencendo os médicos e as famílias a usarem fórmulas infantis, ao invés, de amamentarem os seus bebês. Aquelas mães que conseguem manter o aleitamento, tem um segundo gargalo que é a licença maternidade que hoje está em quatro meses. As empresas do governo federal e alguns governos estaduais adotam o conceito de empresa cidadã que estende a licença maternidade por seis meses, mas a pessoa precisa estar em trabalho formal, o que não é o caso da maioria das mães”, disse, destacando a importância do fortalecimento da rede de apoio às mães na atenção primária.

Diarreia e pneumonia

O trabalho indicou também que, entre 2018 e 2020, o Rio de Janeiro foi o município brasileiro com maior número absoluto de óbitos (20) por diarreia entre bebês de até 1 ano, seguido de Belém (19), Manaus (14); e Fortaleza e São Paulo (13). Na mesma faixa etária, a capital fluminense ficou em segundo lugar (62) entre os municípios com maior número absoluto de mortes por pneumonia, atrás apenas de São Paulo (99). “Com a ampliação dessa Atenção Básica à Saúde a gente conseguiria reduzir bastante essas mortes”, afirmou o pesquisador.

“A gente está na semana de campanha do sarampo e é importante frisar que os pais levem as crianças para vacinar. A gente está vindo de anos sucessivos de queda e precisa resgatar. A campanha é um bom momento para lembrar que quem tomou a primeira dose precisa tomar a segunda. Quem não tomou nenhuma já toma a primeira. É importante conscientizar a população neste sentido”, alertou a pesquisadora.

Observa Infância

De acordo com a Fiocruz, o Observatório de Saúde na Infância “é uma iniciativa de divulgação científica para levar ao conhecimento da sociedade dados e informações sobre a saúde de crianças de até 5 anos”. A intenção é ampliar o acesso à informação qualificada e facilitar a compreensão sobre dados obtidos junto a sistemas de informação nacionais.

O observatório reúne pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Centro Universitário Arthur de Sá Earp Neto (Unifase) da Faculdade de Medicina de Petrópolis, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Bill e Melinda Gates.

Tags: BebêsdiarreiapneumoniaSaúdeVacinação
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