Brasília (DF) – O Brasil deve enfrentar cerca de 860 mil casos prováveis de dengue em 2027. O número foi revelado nesta sexta-feira (6) durante o webinário sobre a preparação para a temporada da doença, um evento que reuniu pesquisadores da Fiocruz, FGV, Mosqlimate e InfoDengue. O dado faz parte de um relatório técnico elaborado por um grupo de 130 especialistas de oito países, voltado ao Ministério da Saúde.
Embora a previsão sugira um cenário alinhado aos anos de 2025 e 2026, a expectativa de um super El Niño durante o verão mantém o sinal de alerta aceso entre as autoridades sanitárias. Diferente da explosão atípica observada em 2024, a estimativa atual aponta para uma curva menos agressiva, mas ainda persistente. O modelo conjunto indica um pico de 40 mil notificações concentradas no mês de abril de 2027, com uma margem de incerteza que varia de 560 mil a 1,6 milhão de casos.
A análise é fruto do Desafio de Previsão de Dengue InfoDengue–Mosqlimate, que nesta terceira edição integrou 22 modelos distintos desenvolvidos globalmente. Flávio C. Coelho, pesquisador da FGV e do Mosqlimate, destaca que a abordagem colaborativa é fundamental para transformar dados brutos em ferramentas operacionais úteis para os gestores de saúde pública. Já Claudia Codeço, coordenadora do InfoDengue na Fiocruz, ressalta que o momento exige organização da rede de atendimento e reforço nas estratégias de prevenção, mesmo sem a previsão de uma epidemia de larga escala.
O impacto climático do El Niño ainda gera debates entre os cientistas. Três modelos analisados incorporaram variáveis meteorológicas, mas chegaram a conclusões distintas sobre a magnitude e a distribuição geográfica desse fenômeno. Por isso, a recomendação é tratar o El Niño como um gatilho de contingência, priorizando modelos de monitoramento de curto prazo em vez de depender exclusivamente de estimativas de longo prazo.
Geograficamente, a tendência de alta na comparação com a temporada anterior atinge Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Sergipe, Acre e Minas Gerais. Nas demais unidades da federação, a perspectiva é de estabilidade ou queda. Contudo, a vigilância epidemiológica permanece inegociável, já que as variações climáticas podem acelerar a transmissão regionalmente de forma imprevisível.
A preocupação se estende à febre Chikungunya, também transmitida pelo Aedes aegypti. A previsão é de mais de 90 mil casos. O Nordeste lidera o cenário de risco, com destaque para Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba, Sergipe e Piauí. O Mato Grosso do Sul, atualmente o estado com a maior incidência da doença, também figura entre os pontos de atenção. O Espírito Santo foi excluído das projeções devido a inconsistências nos dados locais de notificação.
A recomendação básica permanece inalterada: eliminar criadouros como vasos, pneus e calhas é o caminho mais eficaz para mitigar a propagação. Especialistas reforçam que a população deve buscar assistência médica imediata ao notar sintomas como febre, dores articulares ou manchas na pele, tratando as projeções não como um destino selado, mas como um mapa para orientar o combate antecipado à proliferação do mosquito.









