Iúna (ES) – O impacto do racismo na aprendizagem das crianças manifesta-se de forma precoce, revelando um abismo entre o desempenho escolar e as origens étnicas ou socioeconômicas dos alunos. Uma análise técnica indica que, aos 5 anos, o ambiente e o acesso a direitos básicos moldam o desenvolvimento infantil, sobrepondo-se às capacidades individuais.
Os dados foram extraídos do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância, o IELS, conduzido pela OCDE. A pesquisa colocou sob lupa pré-escolares de 5 anos em três pilares fundamentais: funções executivas, habilidades socioemocionais e aprendizados básicos.
No quesito numeracia, que envolve contar e reconhecer padrões, a diferença entre crianças pretas e brancas atinge 40 pontos. Enquanto o grupo de crianças pretas registrou média de 423 pontos, o de brancas alcançou 463. As crianças pardas situaram-se em um patamar intermediário, com 447 pontos. O cenário se repete na memória de trabalho, essencial para o armazenamento de informações: as médias ficaram em 462 para crianças pretas, 463 para pardas e 471 para brancas.
Quando fatores como a renda familiar entram na equação, as distâncias se tornam ainda mais acentuadas. A disparidade máxima ocorre justamente na numeracia, onde o fosso chega a 84 pontos entre crianças pretas, pardas ou indígenas de famílias com baixa condição socioeconômica e crianças brancas ou amarelas de famílias abastadas.
Especialistas da área reforçam que o acúmulo dessas desigualdades na infância compromete as trajetórias educacionais futuras. O enfrentamento desse quadro, para além de uma pauta pedagógica, é descrito como um imperativo constitucional. A ausência de intervenções eficazes trava o desenvolvimento e ignora as diversidades que deveriam servir como potência ao país.
Para mitigar essas assimetrias, o estudo aponta marcos legais existentes, como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância e a Política Nacional de Equidade, que buscam priorizar o atendimento a populações em vulnerabilidade. No entanto, o plano de ação sugerido para políticas públicas exige mais do que a lei: requer monitoramento constante de dados desagregados por raça e cor para permitir correções de rota durante a implementação das diretrizes.
A estratégia proposta inclui ainda a combinação de políticas universais com ações focalizadas em territórios quilombolas, indígenas e áreas de pobreza extrema. A formação continuada de professores que atuam em regiões vulneráveis é apontada como uma das medidas mais efetivas para reduzir o desnível no aprendizado. Por fim, a articulação entre as redes de educação, saúde e assistência social surge como a espinha dorsal para impedir que as desigualdades se perpetuem ao longo da vida, garantindo que o ponto de partida de uma criança não condicione, de forma rígida, o seu destino.












