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Natureza

Turismo de observação em Abrolhos impulsiona a preservação das baleias-jubarte

Por Redação / Diário da Nação
2 de novembro de 2026
em Natureza
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Turismo de observação em Abrolhos impulsiona a preservação das baleias-jubarte

📷 Tânia Rêgo/Agência Brasil

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Caravelas (BA) – Em Caravelas, Paulo Salomão transformou regras ambientais em negócio e ajudou a ampliar a temporada no inverno

Em Caravelas, no litoral sul da Bahia, a cena começou com um menino de 6 anos que enjoava no balanço do mar. Paulo Salomão acompanhava o pai nas saídas para o mar no início da década de 1980, no distrito pesqueiro de Ponta de Areia, e já havia fartura nos arredores do Arquipélago dos Abrolhos, um dos principais redutos da biodiversidade marinha do Brasil.

“Só que eu mareava muito, muito, muito. Eu ficava jogado no chão do convés da embarcação e falava comigo mesmo que eu nunca ia conseguir trabalhar no mar. Mas eu gostava tanto, que fui insistindo e acabei acostumando”, relembra.

O gosto pelo mar não sumiu com o tempo. Quando completou 18 anos, Salomão fez o curso de piloto de embarcação oferecido pela Marinha do Brasil. Só que, no mesmo período, o cenário regional já mudava: a criação do Parque Marinho dos Abrolhos, em 1983, e a implementação de regras de proteção ambiental nos anos seguintes alteraram o destino de quem vivia da pesca.

Com a atividade proibida na área do parque, ele decidiu viver dos peixes vivos. A alternativa foi levar turistas até Abrolhos e ensinar mergulho. O primeiro barco daquele piloto que ainda passava mal com o balanço recebeu um nome que traduz bem a insistência: Teimoso.

Hoje, Paulo Salomão tem quatro embarcações, incluindo uma de grande porte com camas para 50 pessoas, e emprega dez trabalhadores. Ele continua transportando mergulhadores interessados nos peixes, tartarugas e corais de Abrolhos, mas o crescimento do negócio ganhou força por causa de um “bicho” maior: as baleias.

“Há uns dez anos, o maior fluxo de pessoas passou a ser em julho e agosto. Hoje só agosto, que é o pico, ganha dos três meses de verão. Todo mundo vem pra ver as baleias.”

Abrolhos funciona como uma maternidade para as baleias-jubarte. Todos os anos, elas percorrem cerca de 4 mil quilômetros desde a Antártica, onde passam alguns meses se alimentando, até as águas mais quentes do arquipélago no sul da Bahia, local em que acasalam e têm os filhotes.

No trajeto, exibem o caminho por muitas cidades costeiras e movimentam um ramo econômico em crescimento: o turismo de observação de baleias. “Muitas pessoas, que antes tinham outras profissões, hoje são marinheiros e estão trabalhando na área”, diz Paulo Salomão. Para quem já atuava no turismo, a temporada das jubartes duplicou a fonte de renda.

“Antes a gente só contava com o verão, era só uma temporada que a gente tinha. Com o aumento da população de baleias, a gente passou a contar com fluxo de pessoas no inverno também. E é um dinheiro a mais que circula no município.”

Esse movimento tem amparo em números da conservação. A população de baleias do Brasil saiu de menos de 2 mil indivíduos no início da década de 1990 para cerca de 35 mil, considerando a última estimativa feita pelo Instituto Baleia Jubarte, em 2022. Três fatores são apontados como centrais: a proibição da caça de baleias no país, decretada em 1987; a criação do Parque Marinho dos Abrolhos, protegendo a área de reprodução dos animais; e o surgimento de grupos ambientalistas dedicados à pesquisa e à preservação da espécie.

O Instituto Baleia Jubarte nasceu em 1988 como projeto e se institucionalizou há 30 anos, com apoio da Petrobras, principal financiadora das atividades até hoje. Eduardo Camargo, diretor executivo do instituto, avalia que o turismo de observação ajuda a preservar porque “agrega valor econômico à baleia viva” e permite uma convivência sem interferir no ciclo dos animais.

“Não tem como falar, ‘agora as baleias vão passar, então ninguém vai pro mar nesses meses’. O que precisa é regular isso de uma forma que não seja prejudicial para elas, mas também não ignore que você tem pessoas vivendo ali. É uma forma de criar uma renda limpa, quando ela é bem feita”, afirma.

Para operar o turismo de observação, os operadores precisam seguir regras da Marinha e do Ministério do Meio Ambiente. Os barcos devem cumprir exigências para obter autorização para turismo náutico e obedecer às boas práticas na interação com os animais.

Uma portaria publicada em agosto deste ano determina, por exemplo, que os barcos mantenham distância mínima de 100 metros e permaneçam próximos por no máximo 60 minutos — ou 30 minutos no caso de fêmeas com filhotes. Também limita a aproximação simultânea: apenas duas embarcações podem ficar perto dos animais por vez.

Além disso, a lei proíbe tentativa de toque ou captura, assim como perseguição e cerco às jubartes, ou qualquer movimentação que obrigue os animais a mudarem seu deslocamento. A fiscalização cabe ao poder público, mas o Instituto Baleia Jubarte mantém parcerias com municípios para capacitar trabalhadores do setor.

Camargo resume que o trabalho passa por atualização constante das regras. “A gente debate, apresenta as regras. Todos os anos, agrega pessoas novas, então sempre tem que voltar atrás e lembrar tudo de novo. Algumas localidades implantaram um selo de responsabilidade e fizeram um acordo de cooperação com o Instituto. Então, só ganha o selo de Amigo da Baleia quem faz a capacitação.”

Nos relatos de quem embarca para ver as jubartes, a experiência costuma aparecer como gatilho de interesse. A mineira Deise Gomes Valente diz que escolheu Abrolhos depois de ver uma reportagem e comparou o encontro com o habitat natural a uma visita sem comparação com aquário ou zoológico. Já Karina Moraes saiu de Vitória com amigos e, após 36 horas de viagem com ondas de até 3 metros, escolheu agosto justamente por causa das baleias — e lembra quando uma delas passou bem perto, com a nadadeira levantada no alto.

O Instituto Baleia Jubarte também mantém centros de visitação em Caravelas, Praia do Forte, Itacaré, Vitória e Ilhabela, além de um ponto de observação recém-inaugurado em Porto Seguro. O instituto ainda faz parcerias com operadores para atividades educativas com passageiros e coleta de dados para pesquisas.

O diretor de Pesquisa do instituto, Milton Marcondes, destaca que a conscientização sobre o papel das jubartes inclui o efeito ecológico. “Quando elas se alimentam na Antártica e defecam aqui, elas estão jogando nutrientes na água, o que aumenta a produtividade de várias espécies, inclusive de peixes de pesqueiro.”

Um estudo feito pelo Fundo Monetário Internacional e pela Universidade de Duke, em parceria com o Instituto Baleia Jubarte e a Organização Great Whale Conservancy, estimou que as baleias presentes no Brasil, incluindo as jubartes, contribuem com mais de US$ 82 bilhões em serviços como fertilização dos mares, captura de carbono e turismo de observação.

Tags: Abrolhosbaleias-jubarteCaravelasconservação marinhaTurismo Sustentável
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