Rio de Janeiro (RJ) – O relógio marcava o auge da tensão política em 19 de agosto de 1976 quando um estrondo chacoalhou o número 71 da Rua Araújo Porto Alegre, no centro do Rio de Janeiro. No sétimo andar do icônico edifício de arquitetura moderna, a explosão de uma bomba destruiu dois banheiros vizinhos à presidência da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Meio século depois daquela fumaça, o episódio ganha novas luzes com o lançamento de uma edição especial do Boletim da ABI.
Destroços e vigilância documentada
O impacto quebrou janelas, danificou salas próximas, elevadores e se espalhou por outros dois pavimentos do prédio de 13 andares, inaugurado em 1938. Ninguém se feriu fisicamente, mas o recado do terrorismo de Estado ficava evidente. Um panfleto abandonado nos escombros trazia a assinatura da Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), um grupo paramilitar de extrema-direita. No papel, a justificativa: a entidade estaria sob domínio comunista e recebia ali o seu primeiro aviso.
A nova publicação, organizada pelo conselheiro Geraldo Cantarino, reconstrói o cenário com base em imagens históricas e relatórios que antes corriam sob sigilo. Um desses arquivos é um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI) datado de setembro de 1976, preservado no Arquivo Nacional por meio do projeto Memórias Reveladas. Os documentos expõem a vigilância microscópica que a ditadura mantinha sobre a rotina, as reuniões e os passos dos integrantes da associação.
Resistência na linha de frente
Naquele ano, a ABI tinha como presidente o jornalista Barbosa Lima Sobrinho e contava em seus quadros com nomes expressivos da imprensa nacional, como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho. Sob a liderança deles, a casa se manteve firme na defesa das liberdades civis. Para o atual presidente da instituição, Octávio Costa, a reação violenta de grupos radicais mirava justamente o papel histórico da imprensa livre como espaço de resistência e anteparo contra o autoritarismo.
A engrenagem do terrorismo político
A violência daquele dia não foi um fato isolado, mas parte de uma engrenagem que tentava sabotar o plano de abertura política lenta, gradual e segura defendido pelo general Ernesto Geisel. Horas após o ataque à ABI, a sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também no Rio de Janeiro, foi alvo de uma bomba que só não detonou por falha mecânica. Na madrugada seguinte, coquetéis molotov atingiram a 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar em Porto Alegre. Em setembro, outro artefato caseiro explodiu no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo.
Ao todo, o Rio de Janeiro registrou nove ataques semelhantes no segundo semestre de 1976, sendo quase todos reivindicados pela AAB. O aparato de repressão estatal, no entanto, nunca identificou os culpados. Para registrar os 50 anos do ocorrido, a ABI realiza um ato no dia 19, às 17h, no próprio sétimo andar do edifício-sede. O evento marcará a fixação de uma placa reafirmando o repúdio permanente ao terrorismo e o compromisso histórico da instituição com a democracia.












