Rio de Janeiro (RJ) – O calendário marcou o sexto ano desde que Jacklline de Oliveira e Luciano Gonçalves celebraram o último aniversário de sua filha, Kathlen Romeu. Em um terraço no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio de Janeiro, a jovem festejou seus 24 anos cercada por sonhos. No próximo sábado, dia 3, ela completaria 30. O destino, porém, foi interrompido violentamente em 8 de junho de 2021, quando Kathlen, grávida de quatro meses, foi atingida por disparos durante uma visita à avó.
Naquele dia, enquanto caminhavam por uma via movimentada da comunidade, ela e sua avó foram surpreendidas por tiros. A denúncia apresentada pelo Ministério Público aponta que policiais militares abriram fogo em direção à área. Os agentes sustentaram a tese de confronto com criminosos, uma versão que jamais encontrou lastro probatório. Agora, mais de cinco anos depois, os policiais Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano sentarão no banco dos réus em 26 de novembro, às 10h.
A trajetória até o julgamento foi marcada por percalços. Embora tenham sido absolvidos em primeira instância na Justiça Militar de uma acusação de fraude processual, o Tribunal de Justiça do Rio reverteu a decisão, condenando-os. Atualmente, os réus respondem ao processo em liberdade e seguem afastados da corporação.
Para Jacklline, a espera pela sentença é um exercício diário de resistência. A mãe de Kathlen, que mantém um pôster da filha na sala de casa, relata que o Estado continua a infligir uma dor que ela compara, sem rodeios, a um tiro de fuzil. Em 2022, a família enfrentou momentos de desamparo ao denunciar que um promotor sugeriu o arquivamento do caso e recomendou que buscassem “justiça divina”. A Corregedoria do MPRJ abriu procedimento, mas o arquivou por falta de provas contra o membro da instituição.
O cenário de letalidade policial no Rio de Janeiro impõe números alarmantes. Em 2025, a polícia fluminense foi responsável pela morte de 798 pessoas, parcela significativa do total de óbitos violentos no estado. Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Rede de Observatórios da Segurança revelam um padrão: as vítimas são majoritariamente homens negros e jovens. Diante desse quadro, os pais de Kathlen transformaram a dor pessoal em uma causa coletiva.
Luciano, hoje estudante de psicologia, e Jacklline insistem que o julgamento de novembro é um teste para a sociedade civil. Eles questionam a quem recorrer quando a própria força de segurança é a autora da violência. “Se esses policiais não forem punidos, a sociedade civil também estará matando Kathlen e o seu bebê”, desabafa a mãe. A luta da família não se resume mais à punição dos responsáveis, mas busca interromper um ciclo onde vidas periféricas são ceifadas sob o peso de uma narrativa que, segundo eles, precisa ser enfrentada com equidade e rigor legal.












