São Paulo (SP) – Pesquisadores da Unifesp identificaram vestígios de sangue humano em salas de interrogatório do antigo DOI-Codi, um dos locais mais emblemáticos da repressão durante a ditadura militar na capital paulista. O achado ocorreu na chamada sala 7, um dos ambientes onde prisioneiros eram submetidos a sessões de tortura. Embora a degradação das amostras e as sucessivas reformas no prédio, situado na Rua Tutóia, tenham impedido a recuperação de DNA, o contexto arqueológico sustenta a conexão direta do material com o período de operação do órgão.
A equipe, composta por especialistas da Unifesp, Unicamp, UFMG, UFSC e USP, trata o edifício como um documento histórico vivo. Cláudia Plens, que coordena a frente de arqueologia forense, explica que a ausência de plantas detalhadas e as constantes alterações arquitetânicas forçaram o grupo a cruzar relatos de sobreviventes com prospecções físicas. A análise de pisos e paredes revelou, sob camadas de tinta e reparos realizados ao longo de décadas, a estrutura original do complexo, incluindo o contrapiso de madeira da época em que o local abrigava o setor de inteligência.
Além dos resíduos hemáticos encontrados em uma antiga enfermaria e nas salas de interrogatório, a investigação trouxe à tona uma inscrição gravada na parede de um banheiro no terceiro andar. Sob diversas camadas de tinta, surgiu um calendário com marcações que cobrem o intervalo de 23 de outubro a 4 de novembro. O achado, interpretado como uma tentativa desesperada de manter a noção de tempo em meio ao confinamento, gerou dúvida sobre o ano de sua confecção, oscilando inicialmente entre 1970 e 1981. O impasse foi superado após o cruzamento com o testemunho de uma ex-presa política, que confirmou ter visto a marcação durante sua detenção em 1971, situando o registro em 1970.
O prédio 2-a, foco central dessa análise arqueológica, faz parte de um complexo por onde passaram mais de 7 mil pessoas. Os registros oficiais apontam pelo menos 52 mortes no local, que funcionou como um epicentro de violência estatal. Desde 2022, o projeto vem utilizando tecnologias avançadas, como o radar de penetração no solo e escaneamento tridimensional, para desvendar as camadas ocultas dessa estrutura.
O trabalho de campo, que incluiu escavações e prospecções nas paredes, reforça a importância de olhar para a arquitetura como testemunha silenciosa. Para os pesquisadores, cada alteração no edifício e cada traço deixado pelos detentos servem como evidências materiais de um passado que a memória oficial tentou apagar com camadas sucessivas de pintura e reformas.







































































































