Ibatiba (ES) – O falecimento do cantor Netinho, na última terça-feira (13), trouxe à tona discussões sobre o linfoma não Hodgkin do tipo B. A patologia atinge o sistema linfático, uma rede complexa que engloba vasos, gânglios e órgãos como baço e amígdalas, funcionando como peça-chave na defesa imunológica do organismo. É nesse sistema que a linfa — líquido responsável por transportar linfócitos — circula, garantindo o combate a agentes infecciosos.
Nos quadros de linfoma não Hodgkin, os linfócitos, localizados majoritariamente em gânglios como os do pescoço, axilas e virilhas, sofrem mutações genéticas. Esse erro de replicação faz com que as células se acumulem de maneira desordenada. Quando a falha ocorre nos linfócitos do tipo B, temos o cenário mais frequente da doença, presente em 85% dos diagnósticos, embora existam variações envolvendo células T e as chamadas células NK.
A hematologista Talita Maira Bueno da Silveira esclarece que o caso de Netinho apresentava um contorno particular: tratava-se de um linfoma plasmoblástico. Frequentemente associado a pacientes com o sistema imunológico debilitado, esse subtipo é reconhecido por sua agressividade e pela dificuldade acentuada de resposta aos protocolos convencionais, o que torna o prognóstico de cura mais reservado em comparação a outras variantes da enfermidade.
As estatísticas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) projetam 10.180 novos casos de linfoma não Hodgkin no Brasil para este ano, sendo 5.370 deles em homens e 4.810 em mulheres. Identificar a doença precocemente é um desafio, já que os sinais variam conforme a velocidade de expansão tumoral. Febre, suores noturnos, perda de peso sem causa aparente, fadiga e o inchaço visível de gânglios são os indícios mais comuns.
Em estágios avançados, o quadro pode se agravar com a presença de dores abdominais, tosse, erupções cutâneas, confusão mental e até dificuldades respiratórias ou motoras. Embora a ciência ainda não consiga determinar uma causa única para o surgimento dos linfomas, o rol de fatores de risco inclui desde predisposições genéticas, exposição a substâncias tóxicas e radiação, até histórico de doenças autoimunes e infecções por agentes como o vírus Epstein-Barr, HIV, HTLV e a bactéria Helicobacter pylori.
O diagnóstico é confirmado por um rastreio detalhado que envolve biópsias, exames de imagem como PET-CT, tomografias e ressonâncias. O estadiamento, classificado de I a IV, define a extensão da patologia. Enquanto o estágio I limita-se a uma área isolada, o IV indica disseminação para órgãos externos ao sistema linfático. Adicionalmente, as letras E e S são utilizadas para sinalizar, respectivamente, a extensão para órgãos extralinfáticos ou o comprometimento do baço.
O manejo terapêutico é personalizado, combinando quimioterapia e radioterapia, além de métodos mais modernos como anticorpos monoclonais e terapia-alvo. Avanços recentes trouxeram a imunoterapia, que, em vez de atacar diretamente o tumor, estimula as defesas do próprio paciente. Para quem não responde às terapias iniciais, o horizonte atual aponta para o uso de anticorpos biespecíficos ou a tecnologia CAR-T cell, uma modalidade celular inovadora que reativa o sistema imune contra as células tumorais.












