Brasília (DF) – A literatura escrita por pessoas negras não existe para propor uma narrativa paralela ou alternativa sobre o Brasil, mas para disputar o próprio centro da história oficial. Essa foi a provocação central da escritora Ana Maria Gonçalves na tarde de um sábado, 4 de maio, em Brasília. Convidada de honra da sexta edição do encontro Julho das Pretas que Escrevem, que integrou a programação do Festival Latinidades, a autora do aclamado romance “Um Defeito de Cor” debateu os rumos do mercado editorial e a persistência do preconceito no país.
A obra, que narra a saga de Kehinde ao longo de 952 páginas, tornou-se um marco contemporâneo. Sequestrada aos oito anos no Reino do Daomé, atual Benin, e escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia, a protagonista dá voz a uma trajetória que inspirou até o desfile da Portela no Carnaval do Rio de Janeiro em 2024. Para a autora, o lançamento do livro em 2006 coincidiu com o início das discussões práticas sobre cotas raciais, servindo como ferramenta para que a sociedade compreendesse a necessidade de reparação.
A disputa pelo espaço central
Ao recusar o rótulo de “contra-história” para o seu trabalho, Gonçalves é categórica: o objetivo é ocupar o mesmo espaço que sempre pertenceu aos homens brancos. Para ela, o romance retrata o país sob a perspectiva de uma mulher negra, sem se colocar à margem. A escritora também traçou um paralelo com o presente ao citar os versos do grupo O Rappa sobre como “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, lembrando que corpos negros ainda são alvos preferenciais da violência estatal.
Primeira mulher negra a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupa a cadeira 33 como a 13ª mulher eleita, Gonçalves fez questão de ressaltar o caráter coletivo de sua trajetória. Segundo ela, sua chegada ao espaço foi pavimentada por tentativas anteriores, como a candidatura de Conceição Evaristo, que expôs a ausência de representação de um grupo que compõe 27% da população do país.
Desafios de mercado e o racismo cotidiano
O mercado editorial brasileiro, embora dê sinais de abertura, ainda carrega abismos históricos. Gonçalves lembrou que, entre o lançamento de “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis, em 1859, e o ano de 2006, ela foi apenas a oitava escritora negra a publicar um romance no país. Embora celebre a ascensão de nomes como Jefferson Tenório, Cidinha da Silva e Eliana Alves Cruz, além de novas vozes das periferias paulistas, a barreira financeira para publicação e distribuição de livros permanece alta.
A jornalista Waleska Barbosa, que mediou o debate, alertou que o prestígio intelectual não blinda essas mulheres do racismo estrutural. Como exemplo, citou o episódio em que a escritora Lilia Guerra, convidada da Flip, foi acusada injustamente de furto em um hotel, e mencionou desabafos de Conceição Evaristo sobre a discriminação que ainda enfrenta ao caminhar pela Avenida Paulista.







































































































