Bonito (MS) – A produção paraguaia ¿Quién Mató a Narciso? conquistou o júri oficial na quarta edição do festival Bonito CineSur, realizado no último sábado (1º), no Centro de Convenções de Bonito, em Mato Grosso do Sul. O longa-metragem, dirigido por Marcelo Martinessi, mergulha em uma ferida aberta da história recente do Paraguai ao adaptar o livro de Guido Rodríguez Alcalá.
A trama resgata o assassinato de Bernardo Aranda, um locutor de rádio homossexual apaixonado por rock, que teve sua vida ceifada em 1959. O crime, que permanece sem solução oficial, é apontado pela Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai como um possível ato orquestrado pelo governo militar. Durante os 35 anos de comando do general Alfredo Stroessner, o regime instaurou um cenário de terror: foram cerca de 20 mil prisões arbitrárias, quase 19 mil casos de tortura e centenas de desaparecimentos. Grupos como o de Aranda estiveram entre os alvos mais frequentes da repressão.
Para o ator Diro Romero, intérprete do protagonista, o reconhecimento no festival funciona como um desfecho necessário para histórias que precisam ser ecoadas. Em um alerta sobre o presente, o artista ressaltou que olhar para o passado é uma estratégia de defesa para impedir que os espectros das ditaduras sul-americanas ganhem força novamente no cenário global.
A premiação em Bonito também foi marcada pelo êxito do cineasta colombiano Alejandro Calderón, que arrematou três estatuetas. Ele foi premiado pelo curta Hipopótamos, el Arca de Escobar e viu seu documentário Páramos II: El Origen ser eleito o melhor longa de cinema ambiental tanto pelo público quanto pelo júri. Ao receber os troféus, Calderón dedicou a conquista a 150 ativistas ambientais colombianos assassinados nos últimos três anos, enfatizando que a visibilidade promovida pelo cinema atua como um escudo para lideranças que vivem sob ameaça constante.
Ao longo da programação, o evento exibiu 32 filmes de dez países, consolidando-se como um ponto de intercâmbio cultural. O diretor do festival, Nilson Rodrigues, defendeu que a união entre os países sul-americanos é o caminho para fortalecer a produção audiovisual regional. A meta para as próximas edições é articular parcerias com ministérios da Cultura de diversas nações, promovendo coproduções que permitam aos vizinhos se reconhecerem nas telas.
A lista de premiados incluiu ainda produções brasileiras, peruanas e equatorianas, reforçando o caráter plural do festival. Enquanto o júri oficial celebrou o impacto histórico de ¿Quién Mató a Narciso?, o voto popular destacou outras narrativas, como o longa peruano Naira e a produção regional Higa Ke – Olho por Olho.











































































































