Aripuanã (MT) – O que começou como um registro técnico para uma rede de televisão alemã, em 1973, transformou-se no ponto de partida para um mergulho autobiográfico. Jorge Bodansky sobrevoava as imediações de Aripuanã, no Mato Grosso, quando uma cena inusitada foi capturada por sua Super-8: indígenas Paiter Suruí, até então isolados, reagiam ao ruído da aeronave tentando atingi-la com flechas. O material permaneceu décadas esquecido em arquivos pessoais, até ser digitalizado recentemente e despertar no cineasta o desejo de entender quem eram aquelas pessoas e o que restou de seu modo de vida.
Essa busca deu origem ao longa Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky, exibido na mostra competitiva ambiental do festival Bonito CineSur, realizado em Bonito, Mato Grosso do Sul. O cineasta retornou ao cenário de sua filmagem original para confrontar o passado com a realidade atual da floresta, uma jornada que ele define como um relato íntimo de sua própria trajetória profissional.
Apesar das cinco décadas que separam as duas filmagens, Bodansky mantém a essência de seu método. Ele se define como um realizador movido pela observação, pela aventura e por uma preocupação persistente com as tensões sociais. Contudo, o cenário que ele encontrou em seu retorno é radicalmente distinto daquele que gravou na década de 70. O projeto Cidade Laboratório de Humboldt, uma iniciativa da ditadura militar voltada à ocupação da região amazônica, hoje não passa de ruínas. O impacto sobre os Paiter Suruí foi devastador, com mortes decorrentes de contatos traumáticos, doenças e violência.
Ao comparar as imagens de ontem com as de hoje, o cineasta aponta uma transformação drástica na paisagem. Onde antes se via uma extensão ininterrupta de mata, atualmente predomina a monocultura da soja. Para Bodansky, essa transição reflete uma política de exploração que atravessa diferentes governos e permanece intacta desde o regime militar. A mentalidade que enxerga a floresta como um vazio a ser preenchido pela produção ignora deliberadamente a presença e a autodeterminação dos povos que já habitam o território.
A despeito desse diagnóstico crítico, o cineasta enxerga uma mudança qualitativa na resistência dessas populações. Ele acredita que a solução para os impasses amazônicos reside na força da sociedade civil. Hoje, comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas demonstram um nível de organização e representatividade que não existia anteriormente. Eles possuem clareza sobre suas demandas e lutam ativamente pelo reconhecimento de seus direitos, um movimento que Bodansky observa com atenção enquanto continua exercendo seu olhar inquieto sobre a realidade do país.






































































































