Niterói (RJ) – Niterói abre suas portas nesta quinta-feira (13) para uma celebração que atravessa as fronteiras do pensamento crítico brasileiro. Até o próximo domingo (16), a cidade recebe a edição de 2026 da Festa Literária Internacional de Niterói (FLIN), que este ano elegeu como eixo central a obra e a trajetória de Lélia Gonzalez. Filósofa, antropóloga e historiadora, Lélia foi figura fundamental na estruturação do feminismo negro no Brasil e na cofundação do Movimento Negro Unificado (MNU).
O conceito de “Territórios das Palavras”, tema que norteia a programação gratuita, busca refletir a urgência das teorias desenvolvidas pela homenageada — como a amefricanidade e o pretuguês. Para os organizadores, esses termos não são apenas conceitos acadêmicos, mas ferramentas para mapear como as matrizes africanas e indígenas moldaram a identidade latino-americana. A neta da ativista, Melina de Lima, terá presença confirmada em uma mesa especial dedicada a honrar o legado de sua avó.
A expectativa é que o Reserva Cultural receba cerca de 30 mil visitantes ao longo dos quatro dias. O curador e diretor do projeto Niterói Livros, Jordão Pablo de Pão, defende que a literatura não se separa do território nem do pertencimento. Para ele, a festa vai além da exposição de obras consagradas, valorizando a narrativa em todas as suas formas: do cordel popular ao fanzine feito com escassos recursos, até o livro de grande circulação. “A narrativa vem pela história contada pela avó ou pelo trabalho reconhecido”, comenta.
A lista de convidados reflete essa tentativa de pluralidade, unindo nomes de peso da cena intelectual e artística. Entre os confirmados estão Valter Hugo Mãe, Ana Maria Gonçalves, Emicida, Conceição Evaristo, Lilia Schwarcz, Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz, Ana Maria Machado, Ruy Castro, Cidinha da Silva, Luiz Antonio Simas, Tatiana Salem Levy e Mariana Salomão Carrara. O evento também mantém diálogos com a música e as artes performáticas através das participações de Teresa Cristina, MC Marechal, Tati Quebra Barraco, Michael Sullivan, Paulo Betti, Fabiana Karla e Rosane Svartman.
A edição de 2026 marca uma aliança estratégica inédita. Pela primeira vez, a Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Biblioteca Nacional integram oficialmente a estrutura do evento, trazendo 15 acadêmicos para debates. Nomes como Antônio Carlos Secchin, Antônio Torres, Geraldo Carneiro, Godofredo de Oliveira Neto, João Almino, Paulo Henriques Britto e Ricardo Cavaliere compõem a grade. A presença de ambas as instituições será consolidada com estandes próprios voltados à disseminação do trabalho editorial e institucional.
O coordenador artístico, Jackson Jacques, ressalta que o maior desafio do público será a escolha diante da vasta oferta de atividades simultâneas. Além dos painéis, a programação contempla oficinas de barro e cultura popular, reforçando o caráter inclusivo da festa. Com tradução em Libras e audiodescrição em diversas ações, o evento busca democratizar o acesso ao conhecimento, priorizando também a formação de novos leitores com a participação ativa de estudantes da rede pública.
Realizada pela Prefeitura de Niterói, através da Fundação de Arte de Niterói (FAN), a FLIN conta com o apoio de instituições como a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Ecovias Ponte. A intenção é clara: consolidar um espaço onde vozes distintas se encontram para discutir os rumos da cultura, da educação e das políticas raciais no Brasil.












