Rio de Janeiro (RJ) – Cinquenta e cinco anos depois de ter sua trajetória acadêmica interrompida pelos porões da ditadura militar, Stuart Edgard Angel Jones recebeu, nesta terça-feira (7), o título de bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A entrega do diploma póstumo ocorreu no Salão Dourado, na Praia Vermelha, zona sul do Rio, em um ato que buscou não apenas honrar o estudante, mas confrontar o apagamento histórico imposto a quem enfrentou o regime de 1964.
Stuart, que militava no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), foi preso, torturado e assassinado em 1971, aos 25 anos, tornando-se um desaparecido político. A conquista da diplomação foi articulada pela irmã do estudante, a jornalista Hildegard Angel, e pelo economista Lucas Duda, ex-diretor do Centro Acadêmico Stuart Angel (CASA). O processo começou após uma homenagem prestada no ano passado, quando Duda assumiu o compromisso de lutar pelo reconhecimento oficial da vida acadêmica de Stuart e de outros colegas vitimados, como Sônia Moraes, mulher do estudante.
Para Hildegard, a cerimônia representa uma vitória substancial no longo caminho pela preservação da memória dos que resistiram. Em sua visão, recordar o martírio de seu irmão e de sua mãe, a estilista Zuzu Angel — que dedicou anos a denunciar o crime e a buscar o corpo do filho —, é um ato indispensável para a construção da nação. Ela ressalta que o exemplo desses jovens, que não se curvaram ao medo, deve servir como bússola ética para as novas gerações.
O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, sublinhou o caráter reparatório do gesto e a importância de manter a história viva diante dos cerca de 70 mil alunos da instituição. A oficialização do encerramento da jornada estudantil de Stuart ocorre anos após o Estado brasileiro retificar seu atestado de óbito, em 2019, reconhecendo formalmente que o óbito foi resultado de perseguição sistemática e violência estatal.
A universidade prepara agora um cronograma para diplomar outros 25 estudantes mortos ou desaparecidos pelo regime. O trabalho de identificação segue as diretrizes do relatório da Comissão Nacional da Verdade. O professor emérito José Sérgio Leite Lopes, coordenador da Comissão de Memória e Verdade da UFRJ, estima que os próximos atos ocorram em agosto, após a conclusão dos trâmites burocráticos. Entre os nomes previstos para a homenagem estão figuras como Ana Maria Nacinovic, Jana Moroni Barroso e Maria Célia Corrêa.
Casos excepcionais, como o de Lincoln Bicalho Roque e Solange Loureiro Gomes, exigirão ajustes no formato da homenagem, já que alguns deles chegaram a concluir o curso em vida ou foram marcados pelas sequelas físicas e psicológicas da prisão. Para a comunidade acadêmica, a diplomação de Stuart Angel é o início de um processo que impede que o silêncio vença a história, garantindo que o legado da resistência permaneça presente nos corredores da universidade.












