Mossoró (RN) – Em outubro de 1927, o Rio Grande do Norte tomou uma decisão que mudaria os rumos políticos do continente. Muito antes de o sufrágio feminino se tornar uma realidade em todo o território nacional, o estado promulgou a Lei nº 660, de 25 de outubro daquele ano, eliminando a distinção de gênero para o exercício do voto. O texto legal, sancionado pelo então presidente do estado, Juvenal Lamartine, abriu as portas para uma transformação histórica que começou a se materializar poucas semanas depois.
Lamartine mantinha interlocução constante com a líder sufragista Bertha Lutz, o que ajudou a moldar a nova legislação. Foi nesse cenário de abertura institucional que, em novembro de 1927, a professora Celina Guimarães Viana decidiu agir por conta própria. Moradora de Mossoró, cidade localizada a 280 quilômetros da capital, Natal, ela compareceu a um cartório para exigir o seu alistamento eleitoral — um gesto individual de insurgência contra a exclusão histórica das mulheres na política.
A iniciativa pioneira transformou Celina na primeira eleitora oficial do Brasil e da América do Sul. Meses depois, em 5 de abril de 1928, ela compareceu às urnas, tornando-se também a primeira cidadã brasileira a exercer o direito de voto de fato. Naquela mesma jornada democrática, o estado viu outras pioneiras se mobilizarem. Júlia Alves Barbosa Cavalcante, residente de Natal, deu entrada em seu pedido de alistamento no mesmo dia que Celina, garantindo o posto de segunda eleitora do país. Ao todo, 15 mulheres exerceram a cidadania nas urnas potiguares naquele ano de 1928.
O avanço nas urnas e a primeira prefeita
O pioneirismo potiguar não parou no alistamento. Em 1928, Lajes, um município a 130 quilômetros de Natal, protagonizou um marco ainda maior para a representatividade feminina. Alzira Soriano de Nóbrega Teixeira lançou sua candidatura à prefeitura local. A articulação política de Bertha Lutz com o governo estadual foi fundamental para viabilizar a campanha de Alzira, que enfrentou um ambiente hostil e permeado por ataques de cunho misógino.
Adversários tentaram deslegitimar a candidata com ofensas diretas, associando a figura da mulher pública à prostituição. Mesmo diante da resistência violenta, Alzira venceu a disputa com 60% dos votos válidos, tornando-se a primeira prefeita eleita no Brasil e na América Latina — um feito histórico que chegou a ser registrado pelas páginas do jornal norte-americano The New York Times.
Para historiadores e pesquisadores, a sequência de acontecimentos no Rio Grande do Norte revela um fenômeno incomum. Enquanto a resistência nacional ao sufrágio feminino funcionava como uma barreira preventiva contra candidaturas de mulheres e pautas voltadas a demandas sociais, o ambiente institucional potiguar agiu na direção oposta. Como explica a professora Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), a abertura política criada pela lei de 1927 e a pressão do movimento feminista aceleraram conquistas que, em outras circunstâncias, demorariam décadas.
Sem a retaguarda legal daquela lei estadual, nem o alistamento de Celina e nem a candidatura de Alzira teriam sido viáveis. A biógrafa e pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília (UnB), reforça que a conquista do direito de votar foi o alicerce indispensável para que as primeiras candidaturas pudessem surgir. No fim das contas, a revolução democrática no Rio Grande do Norte foi impulsionada por cidadãs comuns que decidiram reivindicar o que compreendiam ser seu direito de direito.











































































































