Brasília (DF) – Candidatos à Presidência da República foram alvo de uma cobrança direta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A entidade, após analisar as propostas de cinco postulantes ao cargo, concluiu que o debate eleitoral atual falha ao privilegiar políticas de resposta ao dano, ignorando a necessidade urgente de estratégias focadas na prevenção da violência infantojuvenil.
O levantamento contemplou as plataformas de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO), totalizando 178 menções ao tema. Embora os planos de Lula, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Flávio Bolsonaro abordem o assunto explicitamente — com Renan Santos omitindo referências —, o tom geral preocupa os pesquisadores. A conclusão é que o Brasil, apesar dos avanços sociais das últimas décadas, mantém um cenário grave de violações que exige uma mudança na estrutura das políticas públicas.
Caminhos para a proteção
Na visão de Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, a proteção de crianças e adolescentes depende de uma atuação anterior ao crime. Isso envolve fortalecer a rede de assistência social, saúde e educação, além de garantir suporte às famílias. A entidade defende a institucionalização da parentalidade protetiva, treinando agentes públicos que visitam domicílios para disseminar práticas parentais não violentas. Outro ponto central é a criação de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes, que articule áreas como emprego e educação para mitigar fatores de risco.
Dados alarmantes
A urgência da pauta é traduzida por números brutais. Somente no último ano, o Brasil registrou 2.079 mortes violentas de crianças e adolescentes, uma média de seis vítimas por dia, sendo a maioria composta por jovens negros. O Anuário de Segurança Pública de 2025 revelou um salto expressivo nos maus-tratos domésticos: mais de 38 mil casos, dobrando o volume contabilizado no ano anterior. Além disso, foram notificados 61 mil estupros ou estupros de vulnerável praticados, predominantemente, por agressores conhecidos pelas vítimas.
A falha da homogeneização
O Unicef aponta uma lacuna crítica nos programas de governo: o tratamento das crianças como um grupo homogêneo. As propostas raramente levam em conta recortes fundamentais de raça, etnia, gênero, deficiência ou território. A ausência de estratégias específicas para crianças negras e indígenas, que enfrentam riscos desproporcionais, foi criticada pela entidade. Enquanto o plano de Lula foca mais na prevenção, os programas de Flávio Bolsonaro e Romeu Zema concentram-se em punição e resposta. Já Ronaldo Caiado mescla o foco em investigação e penalização com medidas preventivas de caráter intersetorial.












