Salvador (BA) – Luis Turiba, figura central da cena cultural e da resistência democrática no Brasil, morreu na madrugada desta quarta-feira (26), aos 76 anos, em sua residência em Salvador. O falecimento, decorrente de complicações de saúde, encerra a trajetória de um homem que transitou com naturalidade entre a crônica jornalística, a poesia e o ativismo político.
Nascido no Recife em 1950, Luiz Artur Toribio construiu sua voz no Rio de Janeiro, onde integrou o movimento estudantil e militou no PCdoB. A ditadura civil-militar interrompeu sua formação no Cefet-RJ: aos 17 anos, foi detido pela Justiça Militar e encarcerado por seis meses sob acusação de atividades subversivas. O período foi marcado por relatos de tortura física e psicológica nas dependências do DOI-CODI. Somente em agosto de 2024, a Comissão de Anistia reconheceu oficialmente a perseguição que ele enfrentou, inclusive o monitoramento prolongado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI).
Apesar do trauma, Turiba canalizou sua energia para a produção intelectual. Em 1977, estreou na poesia com Kiprokó. Como repórter, acumulou passagens por veículos como O Globo, revista Manchete e Gazeta Mercantil, sendo agraciado com dois prêmios Esso regionais. Foi na Gazeta que ele chegou a Brasília em 1979, cidade que se tornaria um de seus principais palcos de atuação.
Entre 1985 e 2022, editou a revista Bric-a-Brac, uma referência de vanguarda que, desde o final do regime militar, articulou diálogos com nomes como Nise da Silveira, Caetano Veloso e Manoel de Barros. O poeta também foi peça fundamental no Concerto Cabeças, movimento que marcou a efervescência artística de Brasília nas décadas passadas. A faceta de agitador cultural e jornalista foi lembrada pelo poeta Nicolas Behr, que sublinhou o caráter agregador e inovador de sua obra.
Turiba deixa cinco filhos e seis netos. Fiel ao seu estilo irônico e apaixonado, ele havia deixado em seu livro Luminares, de 1983, um autorretrato de sua partida: queria o caixão envolto na bandeira do Flamengo, ao som de Imagine, encarando a morte como um gol de placa aos 45 minutos do segundo tempo. A vida profissional seguiu essa mesma intensidade, incluindo uma atuação como assessor do Ministério da Cultura antes da aposentadoria.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal lamentou a perda, honrando o título de Cidadão Brasiliense conferido ao autor. Amigos preparam para este sábado (29) uma homenagem no Beirute, bar tradicional que funcionou como um dos corações da boemia intelectual brasiliense frequentada por ele. Informações sobre velório e sepultamento não foram divulgadas pelos familiares.












