Ulaanbaatar, Mongólia – A promessa de um regime global unificado para enfrentar a crescente crise das secas deverá permanecer apenas no campo das intenções após o encerramento da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17). Embora o evento em Ulaanbaatar, na Mongólia, chegue oficialmente ao fim nesta sexta-feira (28), negociadores nos bastidores confirmam que o consenso necessário para uma decisão vinculante não será alcançado.
O impasse é frontal. De um lado, nações africanas, que há três edições da conferência pressionam por um mecanismo multilateral capaz de garantir suporte financeiro e coordenação para populações vulneráveis. Do outro, uma resistência coordenada por Estados Unidos e União Europeia, que encontra eco em países sul-americanos como Paraguai, Chile e Argentina. O cenário repete a paralisia vivida na COP16, realizada em Riad.
O Brasil, atuando em conjunto com a Arábia Saudita, precisou mediar o desenlace diplomático para que o tema não fosse totalmente varrido dos documentos finais. A solução encontrada foi empurrar o debate para a COP18, prevista para 2028 no Egito, limitando o desfecho desta edição a uma decisão meramente procedimental. A postura da União Europeia é movida pela relutância em assumir novos compromissos de gastos externos, especialmente com o bloco lidando com suas próprias crises hídricas internas. Já os norte-americanos têm mantido uma estratégia de restringir agendas multilaterais desde o primeiro dia de conferência.
Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD, admite que o ambiente político está severamente hostil. Ainda assim, ela insiste que a pressão da sociedade civil e o papel do setor privado podem manter a pauta viva, mesmo quando os governos recuam de suas obrigações. “Estamos em um momento de túnel escuro”, reconhece Meza, que aposta na resiliência das instituições como rede de segurança para a falta de ambição estatal.
A urgência não é retórica. Dados da própria UNCCD indicam que a frequência e o alcance das secas saltaram quase 30% desde o ano 2000. Para Daniel Tsegai, coordenador do grupo de trabalho sobre seca na entidade, a visão do fenômeno como um desastre imprevisível é obsoleta. Ele defende a migração urgente da gestão de crises para a gestão preventiva de riscos, tratando a seca como um risco sistêmico que paralisa desde hidrovias, como o Canal do Panamá e o Rio Reno, até o fluxo global de grãos e a saúde pública.
Enquanto o tratado obrigatório definha, soluções paralelas tentam preencher o vácuo de financiamento. A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca (RGDRP) começou a estruturar um fundo para 70 países, contando com promessas de US$ 2 bilhões de instituições como o Banco Islâmico de Desenvolvimento e o Fundo da OPEP. Somou-se a isso a criação do Fundo de Investimento para Resiliência à Seca (Drif), uma plataforma catalítica de Luxemburgo e da UNCCD desenhada para destravar capital privado.
Para fundamentar essas políticas, a conferência apresentou a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (Idro). A plataforma, que utiliza inteligência artificial, pretende substituir o monitoramento passivo por uma análise preditiva baseada no Índice de Resiliência à Seca (DRI). É uma ferramenta de precisão técnica, mas sua eficácia real dependerá, ao fim, da vontade política que, ao menos por enquanto, parece ter sido deixada para 2028.









