Cariacica (ES) – O cotidiano de oito em cada dez mulheres no Brasil é marcado pela sombra da violência. O dado revela um cenário de insegurança persistente, onde a agressão psicológica figura como a modalidade mais frequente. O levantamento “Segurança das mulheres: percepção da sociedade brasileira sobre a violência”, assinado pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, ilustra como essa realidade força quase a totalidade da população feminina — 98% das entrevistadas — a adotar estratégias defensivas para transitar nos espaços públicos e privados.
A percepção de risco é onipresente. Seis em cada dez mulheres temem a violência doméstica, enquanto 42% identificam pontos de ônibus e estações como locais de perigo iminente. O medo também alcança momentos de socialização: 41% das ouvidas sentem-se vulneráveis em bares ou baladas, e um terço aponta o transporte público como um ponto crítico de risco.
Para Vera Vieira, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, as mulheres funcionam sob um “termômetro” constante. A liberdade de ir e vir é submetida a cálculos rigorosos sobre horários, trajetos e companhias. É um estado de vigilância ininterrupto que molda a existência feminina. Vieira reforça que a experiência não é uniforme: mulheres negras e trans enfrentam níveis de exposição significativamente mais elevados, o que demanda uma agenda educacional voltada ao combate ao preconceito e à construção de uma cultura de paz.
A insegurança tem efeitos práticos na trajetória de vida. Quase metade das mulheres — 45% — já declinou de oportunidades acadêmicas ou profissionais por receio de ser vítima de ataques. No dia a dia, a precaução se traduz em mudanças drásticas de comportamento: trocar o trajeto a pé pelo uso de transporte, evitar carregar cartões de crédito, portar itens de proteção pessoal ou até carregar um segundo aparelho celular. O uso de aplicativos com ferramentas de monitoramento tornou-se uma norma de sobrevivência.
As saídas para esse quadro, segundo as próprias brasileiras, passam por políticas públicas estruturantes. A ampliação dos canais de denúncia é considerada fundamental por 95% das entrevistadas. A melhoria na infraestrutura urbana, como iluminação pública e a qualidade do transporte, é defendida por 93%, patamar similar ao da defesa por políticas que reduzam as desigualdades socioeconômicas no país. O estudo ouviu 1,5 mil pessoas, de ambos os sexos, com 16 anos ou mais, em todas as regiões brasileiras.
Para casos de agressão, a orientação oficial é buscar o Disque 180, serviço de atendimento gratuito que funciona ininterruptamente. Em situações de emergência, o acionamento da Polícia Militar pelo número 190 permanece como o recurso imediato de proteção.












