Santa Cruz de la Sierra, Bolívia – A recente prisão do consultor político Fernando Cerimedo em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, trouxe à tona uma descoberta que vai além da acusação de tentativa de feminicídio. Em um imóvel associado ao estrategista digital, autoridades locais localizaram uma estrutura de fazenda de bots. O fiscal Luis Carlos Torrez Alarcón, responsável pela operação em La Paz, confirmou a apreensão do aparato, utilizado para orquestrar o impulsionamento artificial de conteúdos em redes sociais.
Cerimedo consolidou sua trajetória como uma figura central na comunicação de alas da direita latino-americana, assessorando nomes como o presidente argentino Javier Milei, além de lideranças bolivianas e hondurenhas. Reconhecido internacionalmente, chegou a ser apelidado pela revista The Economist de o homem do MAGA na América Latina, em referência ao movimento de Donald Trump. Em fevereiro de 2026, foi homenageado em Mar-a-Lago, na Flórida, recebendo um prêmio das mãos do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
No Brasil, o empresário ganhou notoriedade em 2022 ao promover transmissões que questionavam, sem apresentar evidências, a transparência das eleições presidenciais. Essa conduta de desinformação motivou inclusive sua participação em audiências no Senado Federal.
A mecânica das fazendas de bots, segundo especialistas, baseia-se na simulação de uma mobilização popular. O pesquisador Reynaldo Aragon explica que essas redes operam através da repetição coordenada de hashtags e interações simultâneas, criando um falso senso de volume e velocidade. A intenção é enganar os algoritmos das plataformas — que privilegiam conteúdos com altos índices de engajamento — para que postagens artificiais atinjam, eventualmente, usuários reais.
Alexandre Arns Gonzales, doutor em ciência política pela Universidade de Brasília, observa que essa prática, tecnicamente classificada por gigantes da tecnologia como comportamento inautêntico coordenado, exige um investimento robusto em equipamentos e pessoal. Ele cita o caso de uma empresa na Tunísia, derrubada pelo Facebook em 2020, que gerenciava centenas de milhares de grupos para influenciar eleições em dez países africanos.
Sobre o cenário brasileiro, as opiniões divergem quanto à eficácia das defesas atuais. Gonzales aponta que os planos de conformidade exigidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das bigtechs podem servir como barreira, forçando a identificação dessas redes inautênticas. Contudo, Aragon é cético e sugere que o combate real a essa manipulação exigiria investigações profundas e atuações conjuntas entre polícias e sociedade civil, dada a resistência das plataformas em aceitar regulações mais rígidas sobre o fluxo de informações.
Atualmente, o consultor enfrenta acusações graves na Bolívia. A advogada e ativista Nadia Beller, vítima de disparos de arma de fogo no pescoço, tórax e braço, aponta o empresário como o mandante do ataque. A defesa de Cerimedo nega qualquer envolvimento, sustentando que seu cliente é alvo de uma perseguição política.












