Brasília (DF) – O trauma deixado por inundações e desastres naturais vai muito além da perda de bens materiais. Com o objetivo de integrar o cuidado emocional à resposta estatal diante de eventos climáticos extremos, o coletivo Time To Act iniciou uma mobilização nacional. A proposta central é viabilizar o Projeto de Lei 6151/25, que tramita na Câmara dos Deputados e pretende instituir uma política pública específica voltada para o acolhimento psicológico de populações atingidas.
De autoria dos deputados Pompeo de Mattos (PDT-RS) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS), o texto desenha um sistema multidisciplinar. A estrutura prevê a criação de centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades, conectando as áreas de saúde, assistência social, educação e defesa civil. A intenção é suprir lacunas no atendimento que hoje se limitam a auxílios emergenciais, deixando desamparados grupos vulneráveis, como crianças, idosos e populações em periferias.
Luciana Brafman, fundadora da organização, observa que a necessidade dessa rede de suporte surgiu do contraste entre a urgência da crise e a fragilidade do acompanhamento a longo prazo. “Não faz sentido reconstruir uma região com uma comunidade inteira traumatizada”, afirma. A ativista, que documentou os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, ressalta que o suporte pontual costuma desaparecer assim que a atenção da mídia se dissipa, deixando cicatrizes profundas no tecido social.
A urgência da pauta é endossada por especialistas em campo. Reinaldo Nascimento, pedagogo com atuação em zonas de conflito e áreas de desastre, observou comportamentos regressivos em crianças gaúchas após as inundações, como medo extremo de sons que lembram a chuva. O trauma, segundo ele, é potencializado pelo medo dos pais e pela desestabilização da rotina escolar, que, em tempos de normalidade, funciona como um dos poucos pilares de segurança emocional para os jovens.
A iniciativa também enfrenta um desafio cultural: o negacionismo. Levantamentos recentes da FGV indicam que o Brasil possui índices de ceticismo sobre a severidade da crise climática superiores aos de vizinhos latino-americanos, com 44% dos entrevistados demonstrando descrença. Esse cenário é agravado pela circulação de desinformação em redes e espaços políticos, onde, por exemplo, grandes obras de impacto ambiental são apresentadas como medidas favoráveis à redução de emissões, desviando o debate científico.
Pesquisas da Fiocruz reforçam que a resistência em aceitar a urgência climática está atrelada a valores ideológicos e níveis de informação. O coletivo Intervozes também mapeou como narrativas de desinformação, especialmente na Amazônia, utilizam o ataque a ONGs e o uso de dados distorcidos para paralisar discussões sobre justiça socioambiental.
Ao conectar a ciência à prática, o PL 6151/25 tenta superar a barreira da descontinuidade. Para os defensores da proposta, preparar a sociedade para a resiliência não é apenas uma medida humanitária, mas uma necessidade econômica. Sem um suporte coletivo estruturado, a reconstrução física das cidades corre o risco de ser ineficaz, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade e medo que, a longo prazo, trava o desenvolvimento das regiões atingidas.







































































































