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Milton Santos tem trajetória política e racial revelada em acervo da Usp 25 anos após morte

Pesquisas recentes em 60 mil documentos revelam como o pensador antecipou debates sobre o movimento negro e a exclusão social no Brasil

Por Redação / Diário da Nação
24 de junho de 2026
em Cultura
2 mins read
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Milton Santos tem trajetória política e racial revelada em acervo da Usp 25 anos após morte

📷 25 anos sem Milton Santos. Foto: Acervo IEB-USP/Divulgação

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São Paulo (SP) – O relógio marcou 25 anos nesta quarta-feira, 24, desde que a voz de Milton Santos silenciou, mas um labirinto de papéis guardado no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) tem feito o pensador falar mais alto do que nunca. Entre os 60 mil itens que compõem seu arquivo pessoal, pesquisadores estão mapeando uma faceta que, por décadas, ficou à sombra das consagradas teses sobre globalização e geografia humana: o Milton Santos militante, articulador de pautas raciais e analista político visceral.

A virada de chave para esse resgate não é aleatória. Com a consolidação das cotas raciais nas universidades públicas, uma nova leva de acadêmicos entrou nas salas de aula com uma pergunta incômoda na ponta da língua: onde estão os autores negros na base do nosso conhecimento? Maurício Costa, pesquisador do Instituto Federal de São Paulo, explica que o movimento gerou uma reabertura dos arquivos. Não se trata apenas de revisitar a geografia, mas de compreender como o autor de O Povoamento da Bahia — seu primeiro livro — já apontava as engrenagens do racismo estrutural muito antes de o tema ser aceito como prioridade no debate público.

As descobertas mostram um intelectual que não se limitava ao gabinete. Durante o período em que esteve na África, nas décadas de 1950 e 1970, Santos não foi apenas um observador. Ele escreveu sobre o continente com uma profundidade rara para a época, estabelecendo pontes que conectavam a exclusão do negro no Brasil aos processos globais de marginalização. No livro Marianne em Preto e Branco, composto por artigos de viagem, essa lucidez fica evidente. Além disso, ele foi um dos leitores pioneiros de Frantz Fanon no país, uma referência intelectual que atravessou seu pensamento muito antes da atual onda de resgate acadêmico.

Para Sérgio Henrique de Oliveira, docente da Unila, o material inédito desmonta o mito de que Santos se manteve alheio às lutas do movimento negro. O que emerge dos documentos é um militante de outra estirpe: um elaborador de ideias que alimentou debates internos e forneceu a base teórica sobre território e cidadania. Sua obra O Espaço do Cidadão, escrita como uma intervenção direta no processo da Constituição de 1988, é o exemplo definitivo de como ele tentava forçar o Estado a discutir a ausência de direitos nas periferias.

Essa teoria, aliás, desceu o morro e ocupou as ruas. Regina Lucia Santos, coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU) e ex-aluna do geógrafo, observa que os conceitos criados por ele — as redes invisíveis de solidariedade e a criatividade na escassez — descrevem, na prática, o dia a dia de quem vive nas margens urbanas. Embora a população periférica nem sempre nomeie o autor, ela habita a teoria miltoniana em cada esforço de organização territorial.

Nascido em 1926 em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e falecido em 2001 aos 75 anos, o geógrafo construiu uma trajetória marcada pelo exílio durante a ditadura militar e pela resistência em ambientes acadêmicos frequentemente hostis. Hoje, sua presença é sentida de Gana a Paris, servindo de norte para movimentos como o MST e o MTST. O acervo da USP não guarda apenas rascunhos de um homem; guarda o roteiro de um pensador que compreendeu, antes de quase todos, que o território é o palco onde a desigualdade brasileira se desenha.

Tags: acervoanos apósanos nestaGeografiamilton santosmorte sãoMovimento Negropauloquartaracial reveladaracismo estruturalrelógio marcoutrajetória políticaUSP
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