Salvador (BA) – O Largo do Pelourinho, em Salvador, transformou-se em um ponto de encontro literário na noite de sábado. Centenas de pessoas ocuparam o espaço histórico para ouvir Carla Madeira, nome de destaque na ficção nacional e autora de sucessos como Tudo é Rio e Véspera. Durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), a mineira defendeu que a literatura atua como um pretexto fundamental para o diálogo.
Com mais de um milhão de cópias vendidas, a escritora observa uma mudança positiva no comportamento do público. A proliferação de clubes de leitura e a intensa circulação de debates sobre obras nas redes sociais têm, na visão dela, um impacto direto na democratização do interesse pelos livros. Ela considera esse exercício de troca — onde se concorda, discorda e se cruzam referências — uma ferramenta poderosa para a ampliação da consciência coletiva.
Apesar do entusiasmo com essas comunidades digitais, Carla Madeira mantém os pés no chão ao analisar o cenário demográfico. Com uma população de 220 milhões de habitantes, o Brasil ainda apresenta índices de leitura modestos. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, corroboram essa percepção: 53% dos brasileiros com cinco anos ou mais não abriram um livro nos três meses anteriores à coleta dos dados. Para a autora, essa realidade esbarra em barreiras socioeconômicas profundas, como a falta de acesso e a ausência de condições básicas de moradia e infraestrutura para o hábito de ler.
A escritora reforçou a necessidade urgente de políticas públicas eficazes que combatam essas desigualdades. Segundo ela, falar de leitura sem considerar a escassez de recursos básicos, como um local adequado para o descanso ou a iluminação apropriada, é ignorar a bolha social onde o debate literário costuma estar contido.
No evento, a autora também antecipou detalhes de sua nova obra, Quando, prevista para chegar às livrarias ainda este mês. O romance, que explora a trajetória de uma mãe que denuncia o próprio filho, foi gestado durante um período pessoal de luto intenso. Carla sublinhou que, embora o processo de escrita tenha ocorrido em um momento de dor, o livro não se classifica como autoficção. A narrativa é ambientada em 1986, período marcado pelas eleições diretas no país e pelas marcas remanescentes da ditadura. Mais uma vez, a família aparece no centro de sua trama como um espaço fundante, onde se estabelecem os primeiros pactos civis e a visão de mundo do indivíduo.
A Flipelô, que chegou à sua décima edição, encerra suas atividades neste domingo, consolidando-se como um dos palcos centrais para a discussão sobre o futuro dos livros no país.







































































































