Brasília (DF) – O ritmo de um menino de 8 anos é frenético, uma sucessão ininterrupta de partidas de queimada, piques e corridas por espaços abertos. Para Samuca, a infância é um borrão de movimento. No entanto, durante as férias, o fluxo das brincadeiras encontrou um obstáculo necessário: uma conversa definitiva com o pai. O goianiense Cleomar Barros, de 43 anos, interrompeu a rotina do filho após descobrir que ele compartilhara risadas com um amigo ao observar partes do corpo de uma colega de classe. O diálogo foi direto. Cleomar relembrou o filho da importância de respeitar as meninas, evocando o tratamento que ele mesmo dispensa à irmã, de 11 anos. A lição foi clara: desrespeito não é piada.
Para Cleomar, que trabalha como analista de sistemas em Brasília, essa vigilância não é episódica. Ele busca demonstrar, nos gestos cotidianos com a esposa e a filha, o tipo de cuidado e parceria que espera que o filho replique futuramente. Essa construção da masculinidade saudável, baseada na prática e não apenas em sermões, é apontada por especialistas como a estratégia mais eficaz para combater a misoginia na raiz.
O psicanalista Thiago Queiroz, autor da obra Amor de pai, reforça que a criança decodifica os valores parentais por meio da observação constante. A naturalização do respeito, segundo ele, deve permear todos os ambientes frequentados pelo núcleo familiar. O exemplo masculino atua como o principal balizador de conduta para o garoto em formação.
A psicóloga Bárbara Lobato observa que o perfil dos pais mudou significativamente, com um contingente crescente dedicado a intervir contra preconceitos sexistas. Ela defende que, para criar filhos mais empáticos, o homem precisa, primeiro, estar apto a reconhecer e verbalizar suas próprias dores. Quando um pai nega seus sentimentos, ele cria um hiato comunicativo que pode levar o adolescente a buscar refúgio em grupos ou comportamentos distantes de um convívio social saudável.
No ambiente escolar, a dinâmica é ainda mais complexa. Ana Paula Lilly, orientadora educacional em Bauru, São Paulo, aponta que o discurso misógino frequentemente chega aos alunos via dispositivos móveis. A educadora sublinha a urgência de uma parceria inabalável entre escola e família. O objetivo é oferecer aos jovens ferramentas para uma análise crítica dos conteúdos que consomem no ambiente digital, evitando que fiquem vulneráveis a narrativas de ódio.
Essa necessidade de apoio mútuo entre homens deu origem a novas redes, como o canal de vídeos Papicast, criado em São Paulo. Tiago Koch, cofundador da iniciativa, acredita que muitos garotos hoje atravessam um silêncio angustiante. Eles buscam entender seu lugar no mundo, mas são constantemente bombardeados por ideias reforçadas em redes sociais que prezam pela força bruta e pela hipersexualização. Segundo Koch, os pais frequentemente se sentem desamparados por não terem tido em seus antepassados exemplos de uma masculinidade desprovida de violência.
O terapeuta Fábio Manzoli, que trata de traumas masculinos em Jundiaí, é um exemplo vivo dessa transição. Criado sob a máxima de que “homem deve engolir o choro”, ele reconhece que precisou desconstruir padrões de linguagem e comportamento que antes considerava inofensivos. Para ele, a mudança começa na vulnerabilidade permitida: pais que choram diante dos filhos ensinam que a humanidade não é um defeito, mas uma conexão necessária.
Romper com o ciclo histórico de desvalorização feminina e com a rigidez da performance masculina exige esforço diário. Ao contrário de um presente que se dá uma única vez, a educação pelo exemplo é um processo de longa duração. Como bem exemplifica Cleomar, o trabalho de formação não é um evento isolado, mas uma postura que permite ao filho, enquanto corre e brinca, crescer consciente do lugar de respeito que ocupa no mundo.








































































































