Rio de Janeiro (RJ) – O cenário clínico para o manejo da tireoide durante a gravidez mudou. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) atualizaram as orientações nacionais, refletindo mudanças publicadas pela Associação Americana da Tireoide (ATA). O novo posicionamento, oficializado nesta sexta-feira (28) durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, no Rio de Janeiro, coloca um ponto final na prescrição preventiva de levotiroxina para um grupo específico de pacientes.
A partir de agora, gestantes que apresentam anticorpos contra a tireoide — especificamente o anti-TPO — mas mantêm a função da glândula preservada, com níveis normais de T4, não devem receber reposição hormonal sintética. A decisão é amparada por três estudos de peso que confirmaram a ausência de benefícios na prevenção de abortos ou partos prematuros para este perfil de mulher. Embora o uso da medicação seja descartado preventivamente, o acompanhamento permanece rigoroso, dado que a presença do anticorpo sinaliza uma predisposição aumentada ao desenvolvimento de hipotireoidismo ao longo do período gestacional.
Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, esclarece que a detecção do anticorpo é apenas um alerta, não um diagnóstico de disfunção. Quando os níveis de TSH e T4 livre estão dentro da normalidade, a paciente é considerada eutireoidiana e a introdução da levotiroxina não apresenta justificativa científica. Para as mulheres que já lidavam com o hipotireoidismo antes da concepção, contudo, a orientação permanece inalterada: é necessário elevar a dose do hormônio em cerca de 30% logo após a confirmação da gravidez.
No que tange ao rastreamento, o Brasil mantém a postura de investigar todas as gestantes desde o início do pré-natal. A estratégia diverge da recomendação da ATA, que sugere focar apenas em pacientes com fatores de risco. Especialistas brasileiros argumentam que o rastreio seletivo pode deixar passar casos críticos. Entre os critérios de risco atualizados, idade materna, obesidade e multiparidade perderam o status de indicadores prioritários, sendo considerados pouco precisos para a triagem. Agora, o foco recai sobre histórico de doenças tireoidianas, cirurgias prévias na glândula, histórico de infertilidade, abortamentos de repetição e doenças autoimunes como o diabetes tipo 1.
O tratamento do hipotireoidismo subclínico — quando o TSH está elevado mas o T4 livre se mantém normal — também foi refinado. Agora, a intervenção com levotiroxina para níveis de TSH entre 4,0 e 10 mUI/L concentra-se no primeiro trimestre. O argumento é que o desenvolvimento fetal depende crucialmente do hormônio materno até a 12ª semana. Casos identificados a partir do segundo trimestre, sem que o TSH ultrapasse 10 mUI/L, serão conduzidos apenas com monitoramento contínuo.
Sobre a suplementação de iodo, as sociedades brasileiras optaram por uma abordagem individualizada, contrapondo-se à recomendação de suplementação universal. Apenas gestantes com dietas restritivas, como veganas, ou com comprovada má absorção devem receber reforço diário entre 100 e 150 µg, mantendo a cautela para evitar intervenções desnecessárias.












