Salvador (BA) – Quarenta anos de uma amizade cultivada pelo papel ganharam o público na última quinta-feira (07). Durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), na Casa Motiva, em Salvador, foi lançado o livro Cartas: Jorge Amado – Erico Verissimo, um mergulho inédito no diálogo entre dois gigantes das nossas letras. A obra integra a coleção Um gesto de amizade, mantida pela Fundação Casa de Jorge Amado.
O volume, organizado por Paloma Jorge Amado e Bete Capinan, vai além da troca epistolar protocolar. O leitor encontra ali documentos históricos, confissões pessoais e a construção de obras consagradas. A edição é enriquecida por um texto de Luís Fernando Verissimo e orelha assinada por Fernanda Verissimo, neta do autor de O Tempo e o Vento.
Fernanda aponta a profundidade técnica desse intercâmbio, destacando que ambos mantinham um rigoroso acompanhamento da produção um do outro. A própria Paloma revela passagens curiosas, como a insistência de Jorge Amado em chamar Luís Fernando Verissimo — neto do gaúcho — de “João”, sob o pretexto de que o rapaz não poderia ter outro nome. “O papai chamava o Luís de João, dizendo que ele tinha cara de João. E o Erico respondia contando que o ‘Joãozinho’ estava escrevendo crônicas maravilhosas”, recorda.
Há também espaço para o bom humor. Em um relato sobre uma viagem pela Itália, Jorge Amado descreve o encontro com duas livrarias rivais: em uma, a placa o consagrava como o maior autor brasileiro; na outra, o título pertencia a Erico. A esposa, Zélia Gattai, registrou a cena, eternizando o clima de camaradagem que permeava a relação.
Para além da leveza, as cartas funcionam como um termômetro das turbulências políticas do século XX. Fernanda Verissimo sublinha como os escritores, de figuras centrais do Estado Novo à resistência contra a censura na ditadura dos anos 70, mantiveram um papel ativo como intelectuais públicos. O acervo, sob guarda da Fundação Casa de Jorge Amado, revela a disciplina do escritor baiano: nunca deixar uma correspondência sem resposta.
Angela Fraga, presidente da instituição, reforça que o material é vasto e exige um trabalho minucioso. Jorge Amado, ciente do valor documental do que escrevia e recebia, preservou meticulosamente cada bilhete. Hoje, a equipe da Fundação busca mapear não apenas as cartas recebidas, mas localizar as que foram enviadas pelo autor, num esforço contínuo para reconstruir integralmente esse diálogo histórico.








































































































