Brasília (DF) – O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, evento mais longevo do país e patrimônio imaterial do Distrito Federal desde 2007, vive um cenário de instabilidade administrativa que ameaça sua realização. Na última segunda-feira, a organização foi surpreendida pela informação de que a 59ª edição, agendada para ocorrer entre 11 e 19 de setembro, não seria levada adiante.
A tensão durou poucas horas. Ainda na noite daquele dia, a governadora Celina Leão utilizou suas redes sociais para confirmar a manutenção do festival, instruindo a Secretaria de Economia a providenciar os recursos necessários. A medida, contudo, não dissipou as preocupações dos profissionais do setor, que encaram o episódio com desconfiança diante dos bastidores políticos locais.
O impacto de uma eventual interrupção vai além da exibição de filmes. Tiago de Aragão, diretor regional da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), vinculou o impasse a uma crise financeira mais ampla no governo distrital, citando o caso dos títulos do Banco Master adquiridos pelo Banco de Brasília (BRB). Para a classe artística, a hesitação administrativa sinaliza uma negligência que coloca em risco dezenas de contratos já em execução.
A cineasta Carina Bini ressalta a relevância econômica e simbólica do festival, lembrando que o Cine Brasília não é apenas uma vitrine, mas o motor de uma cadeia produtiva que movimenta a economia da capital. A edição de 2026 registrou números expressivos, com 1.928 filmes inscritos, consolidando a expectativa em torno de mais de 80 obras confirmadas para a mostra competitiva.
Para Tatiana Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), a ameaça ao festival carrega uma carga política preocupante. Ela recorda que o evento só foi interrompido, em toda a sua trajetória iniciada em 1965, durante períodos de censura na ditadura militar. Segundo ela, o sinal enviado pelo GDF reverbera como um risco para a sobrevivência de outros festivais de cinema em todo o território nacional.
O diretor artístico do festival, Eduardo Valente, manifestou publicamente a necessidade de união entre associações, público e outros festivais para blindar a longevidade do evento. Enquanto o futuro imediato depende da operacionalização dos repasses prometidos pelo Executivo, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal mantém silêncio sobre os trâmites. Com o Troféu Candango em jogo e a tradição de exibir apenas obras inéditas, o setor aguarda definições concretas antes que a tela do Cine Brasília precise, por força de um imbróglio administrativo, permanecer apagada.












