Salvador (BA) – Com o lançamento de Coração sem Medo, o escritor Itamar Vieira Junior finaliza sua ambiciosa trilogia sobre a terra. Se as páginas anteriores, iniciadas com o sucesso de público Torto Arado e seguidas por Salvar o Fogo, mergulharam na relação ancestral e conflituosa com o solo rural, o novo volume desloca o olhar para a realidade urbana de Salvador. A trama acompanha Rita Preta, uma operadora de caixa que vê sua vida comum desmoronar quando um de seus três filhos desaparece misteriosamente, dando início a uma jornada angustiante em busca de respostas que a sociedade, muitas vezes, prefere ignorar.
O autor enxerga nessa história um espelho da desolação que assombra periferias brasileiras, onde o sumiço de jovens — frequentemente vinculados a cenários de violência — se tornou um drama recorrente. Os números oficiais parecem corroborar a urgência do tema. Somente no primeiro semestre deste ano, o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública contabilizou 43.828 desaparecimentos, uma média de 242 ocorrências diárias. Ao longo do ano anterior, o volume total alcançou 85.232 casos. Especialistas alertam, contudo, que essas estatísticas podem ser apenas uma fração do cenário real, dado o alto índice de subnotificações que invisibiliza as vítimas.
Durante uma conversa com o público na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, Itamar pontuou que, embora o trauma transponha barreiras sociais, o peso recai desproporcionalmente sobre quem carece de suporte estatal. Ele questiona o destino das mães após o luto não resolvido: seria o caminho da desistência ou o da busca obstinada por justiça? Na ficção, a trajetória de Rita Preta é impulsionada pela percepção de que sua dor, aparentemente isolada, possui raízes profundas. A personagem descobre que precisará se reconectar com suas origens e com a memória de seus ancestrais para compreender o peso do que lhe foi arrancado.
Para o romancista, o papel fundamental da literatura é oferecer uma lente que humaniza o que o noticiário costuma tratar de forma rasa ou meramente estatística. Ele ressalta que a arte não tem a obrigação de apresentar soluções, mas, sim, a responsabilidade de instaurar o incômodo. É a partir desse desconforto, acredita, que brota a possibilidade de transformação social. No livro, a cidade de Salvador aparece não como um cartão-postal, mas como um território desigual, marcado por disputas históricas e por uma letalidade policial que atinge famílias desprotegidas.
A transição do cenário rural para o urbano, nesta etapa final da trilogia, revela uma conexão metafórica. Para Itamar, o corpo de um filho desaparecido funciona como um território em disputa, da mesma forma que a terra em Torto Arado ou o patrimônio disputado em Salvar o Fogo. O autor defende que, se um indivíduo pode ser simplesmente subtraído da vida de uma mãe, é porque a sociedade ainda falha em proteger corpos que, historicamente, foram relegados à margem das políticas públicas. Coração sem Medo, portanto, não é apenas um retrato do presente; é uma investigação sobre o que permanece de um povo quando tudo o mais, inclusive seu próprio território, lhe é retirado.








































































































