Cariacica (ES) – As urnas eletrônicas ainda registravam a virada de Luiz Inácio Lula da Silva na apuração presidencial quando o telefone de Felipe*, de 17 anos, começou a vibrar com mensagens de ódio. O áudio enviado por um colega em um grupo de WhatsApp da turma no Distrito Federal foi direto: “Eu juro que amanhã se você for para a escola você não volta vivo”. Antes da ameaça explícita, o autor do ataque disparou ofensas políticas chamando o estudante de “esquerdista desgraçado” por causa da preferência eleitoral.
A escalada de violência verbal no grupo seguiu com novas promessas de agressão física. O mesmo aluno escreveu que espancaria outros cinco colegas, mencionando o uso de armas brancas, caso Flávio Bolsonaro perdesse a disputa. Enquanto as mensagens circulavam, outro adolescente reagiu com curtidas e figurinhas debochadas. Além da motivação político-partidária, o histórico de registros aponta que o agressor também destilou intolerância religiosa contra os colegas de classe.
Felipe é um jovem transgênero, mas a mãe, identificada como Aline*, relatou que o filho jamais havia enfrentado episódios de transfobia no ambiente escolar. O choque da família veio justamente pela virada agressiva em torno da política. Para ela, o comportamento reflete o cenário dos adultos. A ideologia tem corrompido o discernimento dos menores, que absorvem a fúria e a incapacidade de lidar com frustrações vinda do mundo externo, transformando o descontentamento em ódio puro.
O impacto imediato foi o afastamento das salas de aula. O adolescente passou a semana inteira trancado em casa e o temor persiste quanto ao retorno na segunda-feira. Apesar da gravidade das intimidações, mãe e filho optaram por não registrar boletim de ocorrência na polícia. O receio de sofrer exposição pública ou novos ataques acabou pesando mais na decisão da família.
A direção da instituição de ensino adotou medidas administrativas após tomar ciência do caso. O autor das ameaças de morte e dos ataques verbais acabou transferido para outra unidade de ensino. O colega que apoiou as postagens com curtidas e reações irônicas recebeu uma suspensão de quatro dias.
O episódio no Distrito Federal ilustra uma onda de hostilidades que tem tomado as redes sociais e os corredores de colégios. Nos últimos dias, dezenas de ocorrências envolvendo intolerância política contra crianças, adolescentes e familiares têm sido denunciadas, englobando desde zombarias e ofensas verbais até agressões físicas severas e ameaças de morte.











