Brasília (DF) – O governo federal oficializou nesta terça-feira, em Brasília, a injeção de R$ 97,3 bilhões voltados ao fortalecimento da agricultura familiar. O pacote engloba linhas de crédito, apólices de seguro rural, mecanismos de compras públicas e reforço na assistência técnica. Mais do que números, a cerimônia serviu como um palanque para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizar a tese de que a comida na mesa vale mais do que qualquer poderio bélico.
Ao discursar para o setor, Lula recorreu a uma memória antiga para ilustrar seu ponto. Ele relembrou um diálogo mantido com o falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, que governou entre 1999 e 2013. Na ocasião, o venezuelano ostentava caças militares, mas Lula rebateu com uma provocação sobre a escassez de itens básicos na Venezuela, como ovos e leite. A lição, segundo o presidente, permanece atual: a verdadeira soberania de uma nação reside na capacidade de produzir seu próprio sustento. Para ele, o Brasil deve priorizar a produção interna e reservar importações apenas para o que for tecnicamente inviável cultivar em solo nacional.
A estratégia econômica por trás do montante de quase R$ 100 bilhões é clara: dinamizar a economia local. Lula incentivou os produtores a acessarem o financiamento disponível, garantindo que o governo negocia ativamente com instituições bancárias públicas para baixar as taxas de juros. O raciocínio é simples — o dinheiro injetado no campo retorna em forma de consumo das famílias, mantendo a engrenagem do país em movimento.
Aproveitando o mote da segurança nacional, o presidente também questionou a vasta extensão de terras sob custódia da União. Com um tom pragmático, ele sugeriu que o uso desse patrimônio deve ser repensado. Afinal, argumentou, o Brasil não pretende se envolver em conflitos armados e, por isso, a necessidade de tantas terras vinculadas a atividades militares seria, na visão atual, questionável.
Vânia Marques, presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), subiu ao palco para reforçar o peso social do setor. Ela celebrou o reconhecimento oficial da categoria, destacando que o incentivo às produtoras rurais transcende a economia. Ao oferecer autonomia financeira, o governo também atua indiretamente na prevenção da violência doméstica. Para a liderança, o pequeno agricultor não é apenas um produtor de alimentos, mas um protagonista na preservação ambiental e na resposta às mudanças climáticas — recuperando solos e protegendo nascentes de forma direta.
O tom da cerimônia, contudo, ganhou contornos de sobriedade ao final. Lula dedicou parte do tempo para expressar solidariedade à Venezuela, atingida por terremotos severos na semana anterior. Os números detalhados pelo presidente traçam um cenário de devastação: 1.943 vidas perdidas, mais de 10 mil feridos e cerca de 15,8 mil desabrigados. Com relatos de 58 mil edificações danificadas e um esforço contínuo de resgate, o evento foi encerrado com um minuto de silêncio, unindo a discussão sobre políticas rurais brasileiras à tragédia humanitária vivida pelo país vizinho.





































































































