Pará (PA) – O rastro de uma organização criminosa que operava na extração e comercialização ilegal de dendê no Pará revela movimentações financeiras na casa de R$ 1 bilhão apenas entre os anos de 2020 e 2024. A rede criminosa estabeleceu um modus operandi complexo, utilizando-se da força e da corrupção para dominar áreas em municípios estratégicos como Concórdia do Pará, Tomé-Açu, Acará, Moju e Tailândia — regiões marcadas pela coexistência entre a monocultura do fruto e a presença de territórios indígenas e comunidades quilombolas.
A estrutura do esquema ia muito além da simples extração clandestina. O grupo mantinha uma logística robusta que incluía o furto do produto, sua receptação e a posterior venda ilícita, blindada por uma rede de lavagem de dinheiro que dissimulava a origem dos recursos. Para dar aparência de legalidade aos ganhos, os criminosos operavam através de um mix de empresas formais e firmas de fachada, o que facilitava o trânsito do capital obtido no crime.
Um dos pontos cruciais da investigação envolve a participação direta de servidores vinculados à área de segurança pública do estado. A proteção oferecida por esses agentes, somada à atuação ostensiva de grupos armados e facções criminosas nas zonas rurais, criava uma barreira de medo que permitia a continuidade das atividades. A discrepância entre o faturamento declarado pelas empresas envolvidas e a real movimentação financeira detectada pelos auditores foi o que deu início ao desmonte da quadrilha.
Como resposta à escala da fraude, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 153 milhões em bens e valores pertencentes aos suspeitos. Além disso, 11 empresas tiveram suas atividades suspensas por tempo indeterminado, sendo impedidas de operar enquanto as investigações seguem em curso.
A ofensiva contra o grupo resultou no cumprimento de nove mandados de prisão preventiva e 25 ordens de busca e apreensão. As diligências não se restringiram ao solo paraense, estendendo-se até o estado de São Paulo, onde foram buscadas provas da ramificação financeira do esquema. O impacto da operação reflete não apenas o prejuízo econômico aos cofres públicos e ao mercado formal, mas coloca luz sobre o assédio constante que comunidades tradicionais sofrem em áreas de exploração agrícola intensiva.












