Brasília (DF) – Antes mesmo do sol ganhar força neste sábado, às 7h, Gorete Nascimento já percorria os 47 quilômetros que separam sua casa, na Cidade Ocidental, do Cemitério Campo da Esperança, em Brasília. Aos 71 anos, o trajeto é um hábito que se repete há mais de três décadas. Na bagagem, não faltavam flores e materiais de limpeza, itens essenciais para que o mármore das lápides da família permanecesse impecável.
Ao percorrer as sepulturas dos pais e das três irmãs, Gorete narra trajetórias com uma vivacidade que ignora a passagem do tempo. Sobre Angelita, que faleceu durante a pandemia, ela ainda conjuga o verbo no futuro ao mencionar o aniversário de 86 anos que ocorreria no próximo dia 6 de novembro. Para Gorete, o cemitério é um ponto de encontro necessário para aplacar uma ausência que nunca se torna rotina.
A experiência da visita ganha contornos diferentes conforme o setor do cemitério. Enquanto Gorete circula por áreas mais antigas, com túmulos monumentais e arquiteturas diversas, Neuza Maria Nora transita pela ala contemporânea. Ali, o rigor do espaço exige simplicidade: apenas uma pequena placa e um candelabro para velas. Após as orações pelos sogros, Neuza se retira para um banco sob a sombra. Observando o fluxo de pessoas, ela reflete sobre a igualdade final que o local impõe, defendendo que a convivência com esse espaço seria um exercício importante para qualquer pessoa.
Essa necessidade de pausa também leva Marcelo Oliveira ao campo santo. Ele comparece com frequência ao longo do ano, transformando o local em um refúgio para permitir que a memória venha à tona sem pressa. Desta vez, esteve acompanhado da mãe e da irmã, mas notou a ausência do irmão mais velho, que evita o cemitério por não suportar a carga emocional que o ambiente desperta.
Raízes da celebração
A prática de reverenciar os mortos no dia 2 de novembro finca suas raízes na tradição católica trazida pelos colonizadores portugueses. Historicamente, o costume remonta ao ano de 998, quando o monge beneditino Odilo de Cluny, na França, instituiu a data para que fiéis dedicassem preces específicas pelas almas daqueles que partiram, logo após a celebração de Todos os Santos.
Com o passar dos séculos, o significado da data transcendeu o catolicismo. Hoje, é observada por diversas vertentes cristãs e por religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, que entre os dias 1º e 2 de novembro realizam rituais voltados ao culto dos ancestrais. No Brasil, o reconhecimento oficial como feriado nacional ocorreu apenas em dezembro de 2002, por meio da Lei 10.607, de autoria da então deputada federal Vanessa Grazziotin.












