Ibatiba (ES) – O avanço de conflitos armados e a deterioração da segurança global transformaram o trabalho de imprensa em uma atividade ainda mais mortal nos últimos dois anos. Entre 2024 e 2025, 189 profissionais de comunicação foram assassinados no planeta. O número representa a maior taxa de mortalidade registrada para a categoria desde o biênio 2014/2015, quando 215 mortes foram contabilizadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
A escalada da violência em zonas de guerra responde pela maior fatia dessa estatística. Segundo o Relatório sobre a Segurança de Jornalistas e o Perigo da Impunidade, divulgado nesta segunda-feira (2), 127 das vítimas — o equivalente a 67% do total — morreram cobrindo combates, um avanço de 24% em relação ao biênio 2022/2023. O uso de novas tecnologias militares agravou o cenário: 50 profissionais foram vitimados em ataques efetuados por drones.
Investidas diretas contra instalações que abrigavam equipes de imprensa ou escritórios de veículos deixaram ao menos 36 mortos — em um único caso, nove comunicadores perderam a vida juntos. Os dados revelam ainda o descumprimento ostensivo de convenções de proteção: em pelo menos 15 episódios, há indícios de que jornalistas foram alvejados mesmo usando coletes com a identificação de “imprensa” ou a bordo de veículos sinalizados.
Em países sem conflitos armados, a letalidade caiu para o nível mais baixo em 18 anos, registrando 62 homicídios. Desses casos, 33 ocorreram dentro de veículos, 17 em escritórios e 20 nas residências das próprias vítimas, por vezes vitimando parentes. Outros sete profissionais faleceram durante a cobertura de manifestações populares, atingidos por manifestantes ou policiais, e quatro morreram em atentados terroristas.
A cobertura de conflitos armados motivou 104 mortes, mas a violência também alcançou a rotina informativa fora das guerras. Houve 38 mortes de profissionais que cobriam política, 22 de repórteres que apuravam o crime organizado e casos decorrentes da cobertura de corrupção. “Isso mostra que fazer reportagens sobre alguns assuntos pode ser tão perigoso quanto reportar em uma zona de guerra”, destacou Sylvie Couldray, diretora de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia e Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
No recorte demográfico, cinco vítimas tinham entre 15 e 24 anos e 20 estavam no grupo de 25 a 29 anos. As mulheres representaram 7% dos casos (14 mortes, das quais 13 ocorreram em áreas de conflito), a menor proporção desde 2012/2013. A Palestina registrou a situação mais grave globalmente, acumulando 62 mortes de jornalistas no contexto dos ataques promovidos pelas forças israelenses desde 2023 — o equivalente a um terço do total de vítimas no mundo.
Cenário no Brasil e a impunidade global
No Brasil, o levantamento computou o assassinato de Luís Augusto Carneiro da Costa, o Luisinho Costa, morto no estúdio da Rádio Guarany em Abaetetuba, no Pará, em maio de 2025. A Polícia Civil paraense concluiu o inquérito e indiciou quatro pessoas. Em resposta aos dados, o país destacou a implantação do Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, adotado em abril pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A apuração desses crimes, contudo, falha sistematicamente em nível global. Desde 2006, 1.641 jornalistas foram assassinados no mundo, mas apenas 223 casos (14%) foram solucionados pela Justiça. Outras 1.013 mortes (66%) seguem impunes, enquanto 321 episódios (20%) não obtiveram respostas das autoridades locais. Com isso, a taxa global de impunidade alcançou 86% este ano — subindo um ponto percentual frente a 2024, no primeiro crescimento do indicador desde 2012.
“O relatório é uma ferramenta importante para monitorar as tendências globais, além de nos lembrar que proteger jornalistas e acabar com a impunidade são essenciais para salvaguardar a liberdade de expressão e o direito do público à informação”, declarou Mariya Gabriel, diretora de Comunicação e Informação da Unesco. A organização procurou autoridades dos 78 países com registros de agressões contra a imprensa, recebendo retorno de 38 nações sobre medidas adotadas. A entidade lembra que os riscos extrapolam os homicídios, englobando sequestros, prisões arbitrárias, perseguições digitais baseadas em gênero e severas limitações de locomoção.












