Rio de Janeiro (RJ) – O céu da zona portuária do Rio de Janeiro ganhou novos contornos na tarde desta segunda-feira, dia 2. Dezenas de pessoas se reuniram no Cemitério da Penitência para a tradicional soltura de balões brancos, uma manifestação que se repete há cerca de uma década. O gesto, silencioso e coletivo, serviu como um suspiro de memória para amigos e parentes que já partiram.
O movimento nos arredores do complexo do Caju, contudo, não se resumiu ao tributo aéreo. Entre missas celebradas na igreja local e momentos de reflexão, os visitantes encontraram na instalação artística batizada de Janelas da Vida um espaço para depositar sentimentos. Ali, em um mural, o luto ganhou contornos de escrita.
Foi o caso de Thamyres Jesus. Ao verter em palavras a ausência do marido, falecido em maio do ano passado, ela encontrou um alívio temporário. A iniciativa, segundo ela, oferece um contraponto necessário ao peso que a data costuma carregar. Ao seu lado, a cunhada Aline da Silva reviveu o impacto de perdas sucessivas: em um intervalo de poucos meses, viu partirem o irmão e, em dezembro, a própria mãe. “É o segundo ano que a gente está aqui. A gente sente muita falta deles”, desabafou.
Para Helena Bernardino, que honra a memória da mãe falecida há oito anos, a presença no cemitério é um exercício de convivência com uma dor que não se dissolve com o tempo. “O luto não passa. Ele atravessa a gente, não é a gente que atravessa o luto”, reflete. Para Helena, rituais como esse funcionam como uma tentativa de transformar o sofrimento paralisante em algo que permita, ainda que com esforço, seguir em frente.
A programação nos cemitérios do Caju buscou oferecer um suporte mais amplo para além da visitação aos túmulos. No vizinho São Francisco Xavier, a atmosfera foi marcada por notas musicais. Um coral se apresentou para os presentes, enquanto uma exposição reunia telas pintadas por quem, durante o mês de outubro, participou de oficinas de arte voltadas justamente para o processo de perda. Além do viés artístico, o espaço ofereceu ainda um curso de jardinagem, buscando na lida com a terra uma forma de ocupação e conforto para quem busca aprender a viver na ausência de alguém.












