Vitória (ES) – O cenário das apostas online no Brasil revela um impacto profundo na estrutura dos lares brasileiros, atingindo, direta ou indiretamente, mais da metade das mulheres. Um levantamento abrangente, que combina dados quantitativos e qualitativos, indica que 42% das mulheres no país já participaram de plataformas de apostas. Desse contingente, 20% mantêm o hábito ativo, enquanto 22% abandonaram a prática após experiências anteriores. Quando se considera que outras 12% daquelas que nunca apostaram convivem com parentes ou amigos engajados no jogo, percebe-se que a influência das apostas alcança 54% da população feminina.
O estudo, conduzido pelo estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia, rompe a barreira tradicional de analisar apenas o comportamento do apostador individual. A diretora do estúdio Clarice, Beatriz Della Costa, observa que a pesquisa traz à tona a perspectiva daqueles que sofrem as consequências colaterais. O impacto financeiro, embora central, é apenas uma faceta de uma crise que desestabiliza laços afetivos e papéis sociais.
Existe um recorte marcante no perfil das apostadoras: a maternidade. Entre as mulheres que utilizam essas plataformas, 72% possuem filhos. A análise sociológica sugere que, enquanto o homem apostador é frequentemente poupado pelo estigma social — sendo visto sob a ótica da tentativa de sustento da família —, a mulher enfrenta um julgamento severo. O papel atribuído a elas, focado no cuidado e na gestão da casa, torna a falha financeira um motivo para questionamentos morais e cobranças externas, o que as leva a esconder o hábito e a apostar, em 30% dos casos, durante a madrugada para evitar a vigilância de terceiros.
Diferente da imagem de entretenimento que a publicidade tenta vender, para muitas mulheres a aposta é concebida como um mecanismo de sobrevivência financeira. O objetivo não é o acúmulo de riqueza, mas o pagamento de despesas essenciais, como material escolar, boletos acumulados ou a compra de alimentos. Esse desespero por dignidade cotidiana é explorado estrategicamente pelas casas de apostas, que conectam o ato de jogar ao dever de cuidado familiar. Esse é um terreno onde a ilusão de controle floresce: 25% das mulheres acreditam que a vitória depende de habilidades específicas ou expertises, um mito reforçado por conteúdos de coaches e falsos especialistas.
O problema, no entanto, transborda a questão financeira. A pesquisa revela que 67% das mulheres acreditam que as apostas estão fragmentando as famílias brasileiras. O custo vai além das perdas monetárias, manifestando-se em brigas, mentiras, episódios de violência e o agravamento de quadros de saúde mental. A insegurança também se torna constante com o endividamento: cerca de 7% das apostadoras admitem recorrer a agiotas, prática que também atinge 8% das mulheres impactadas pelo vício de parentes próximos.
O ciclo de captura dessas plataformas é sustentado por três pilares: a publicidade massiva, o uso de influenciadores locais — que possuem alta credibilidade por serem figuras próximas, como vizinhos ou membros da comunidade — e as redes de confiança. Nestas últimas, o link de indicação é enviado por amigos ou familiares em troca de bônus, criando uma rede de recrutamento que dificulta a percepção dos riscos. Mesmo com a proibição legal para menores de 18 anos, a barreira é contornada com o uso do CPF de adultos do convívio doméstico.
Diante desse avanço, a opinião pública sinaliza uma demanda por respostas. Entre as entrevistadas, 62% defendem a proibição total das apostas no país. Entre as medidas propostas pelo levantamento, destacam-se o fortalecimento da rede de saúde pública para acolher as famílias afetadas, restrições severas à publicidade — algo apoiado por 41% das mulheres — e um controle rigoroso sobre os cassinos online. A urgência de políticas de prevenção e regulação reflete um cenário onde, para grande parte da população, a aposta deixou de ser uma escolha e tornou-se um risco sistêmico.


































































































