Colatina (ES) – O impacto de desastres, sejam eles naturais ou provocados por conflitos, impulsionou a psicóloga Esly Carvalho a dedicar sua trajetória à humanização do atendimento em cenários de crise. Com 45 anos de atuação profissional a partir de Brasília, ela utiliza o método EMDR, uma técnica focada em desbloquear memórias dolorosas, para treinar equipes que lidam com estresse pós-traumático.
Após o terremoto que atingiu a Venezuela em junho passado, deixando um rastro de mais de 6 mil mortos, a psicóloga estruturou um programa de intervenção remota. O projeto capacitou mais de 100 profissionais locais, que realizaram mais de 500 atendimentos. Entre eles está a psicoterapeuta Deglya Flores, moradora de Caracas. Ela descreve que o suporte à distância foi o divisor de águas entre o desespero diante da destruição e a capacidade de acolher a população. Em uma região onde apenas 17 especialistas se dedicam ao tratamento de traumas, o grupo de apoio agora estende seus braços para vítimas de eventos climáticos também na Colômbia.
A força do voluntariado em saúde mental também floresceu de forma orgânica em solo brasileiro. O que começou em 2017 como um gesto simples de seis amigos em São Paulo — que espalhavam mensagens de apoio em viadutos para pessoas com depressão — transformou-se no projeto Help. Hoje, a iniciativa congrega 7 mil voluntários em todos os estados do país e mantém uma presença digital que mobiliza cerca de 389 mil seguidores.
O braço brasiliense do projeto é liderado por Thiago Domingos, um militar da Marinha que viu, nos casos de suicídio entre jovens das Forças Armadas, um chamado para a prevenção. Segundo ele, nos últimos anos, o grupo realizou cerca de 5 mil atendimentos na capital federal. O foco principal recai sobre os chamados “cantinhos do desabafo”, espaços montados em parques, rodoviárias e escolas. Nessas frentes, voluntários como a psicóloga Juliana Cei identificam um cenário preocupante: a epidemia de solidão e o isolamento imposto pelo uso excessivo de tecnologia e apostas online.
A busca por suporte revela novas facetas da vulnerabilidade social. O psicólogo Lucas Hedler, por exemplo, utiliza o voluntariado para criar redes de segurança voltadas à população trans. Ele aponta que a vivência dessa comunidade é marcada pela necessidade de um espaço de escuta que muitas vezes falta até no ambiente familiar. O plano de Hedler é ampliar os serviços, integrando o atendimento a pessoas autistas, dado o alto índice desse diagnóstico entre indivíduos trans.
O alcance dessas ações não se restringe apenas ao alívio imediato da dor. Para muitos voluntários, o trabalho simboliza a criação de uma rede que perpetua o cuidado. Adolescentes atendidos começam a vislumbrar no voluntariado um caminho para transformar o próprio sofrimento em suporte para terceiros. Para quem busca auxílio, o sistema público mantém portas abertas via Rede de Atenção Psicossocial do SUS, além de canais como o Centro de Valorização da Vida (CVV), acessível pelo número 188, e os grupos de Alcoólicos Anônimos.












