Rio de Janeiro (RJ) – O cinema brasileiro perdeu, nesta quarta-feira (22), o homem que ajudou a moldar sua própria identidade. Luiz Carlos Barreto, conhecido pela alcunha carinhosa de Barretão, faleceu aos 98 anos. Sua partida marca o fim de uma trajetória de mais de seis décadas, na qual ele atuou como fotógrafo, jornalista e, fundamentalmente, como um dos maiores produtores que o país já viu. Ele estava internado desde a segunda-feira (20), no Hospital Copa Star, em Copacabana, na zona sul carioca, tratando uma pneumonia que evoluiu para uma infecção pulmonar.
A vida de Barretão começou muito antes dos grandes sets de filmagem. Como fotojornalista na lendária revista O Cruzeiro, ele viajou o mundo, cobrindo fatos históricos e registrando o cotidiano de figuras tão díspares quanto Fidel Castro, Frank Sinatra e Marilyn Monroe. O primeiro chamado para o cinema, no entanto, veio ainda na infância, ao observar Orson Welles filmando jangadeiros no Ceará. Anos mais tarde, a convergência com Glauber Rocha durante as gravações de Barravento selaria seu destino, integrando-o definitivamente ao movimento do Cinema Novo.
Como diretor de fotografia, seu olhar foi essencial para definir a estética de obras-primas como Vidas Secas, de 1963, e Terra em Transe, de 1967. Contudo, foi ao lado de Lucy Barreto, sua companheira de vida desde 1954, que ele revolucionou o mercado. Juntos, fundaram a LC Barreto, uma produtora que se tornou o coração do audiovisual nacional ao completar 63 anos de atividade ininterrupta.
A casa da família funcionava como um centro de resistência cultural. Ali, montaram filmes que definiram gerações, como Os Fuzis, utilizando moviolas instaladas na própria residência. A produtora foi o selo de sucessos memoráveis, como Dona Flor e Seus Dois Maridos e Bye Bye Brasil, além de colocar o Brasil na vitrine mundial com indicações ao Oscar por O Quatrilho e O Que É Isso, Companheiro?. A vocação, como não poderia deixar de ser, foi herdada pelos filhos Bruno, Fábio e Paula, que assumiram posições de comando na empresa. O sucesso familiar, entretanto, não foi imune à dor: em 2009, o diretor Fábio Barreto sofreu um acidente de carro que o manteve em coma por uma década, até seu falecimento em 2019.
A influência de Barretão foi sentida em cada manifestação após o anúncio de sua morte. Amigos de longa data e profissionais do setor não apenas lamentaram a perda, mas destacaram o papel vital do cineasta na viabilização financeira e no pensamento crítico sobre o cinema. “O Brasil deve muito a ele”, resumiu o produtor Nilson Rodrigues, ecoando uma frase que o próprio Barretão costumava repetir: um país sem cinema é como uma casa privada de espelhos.
Em reconhecimento a essa trajetória singular, o governo federal e a prefeitura do Rio de Janeiro decretaram luto oficial de três dias. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou o espírito inquieto do produtor, enquanto a administração municipal celebrou sua capacidade de articular a indústria cultural brasileira. O velório acontece nesta quinta-feira (23), no Palácio da Cidade, em Botafogo, seguido de cremação no Memorial do Caju. Para o setor audiovisual, resta a memória de um homem que, mais do que produzir filmes, lutou para que o Brasil pudesse se enxergar na tela grande.





























































































