Rio de Janeiro (RJ) – O Museu da Justiça, situado no centro da capital fluminense, abriu suas portas para uma narrativa que frequentemente fica à margem dos livros didáticos e das galerias tradicionais. A exposição Lideranças Quilombolas do Rio de Janeiro: História e Resistência coloca em foco figuras femininas que foram — e ainda são — os pilares de sustentação de suas comunidades, oferecendo um contraponto necessário ao anonimato histórico.
O percurso expositivo costura tempos distintos através de um acervo que mistura fotografias, registros em vídeo e instalações interativas. O espectador encontra referências fundamentais, como Dandara dos Palmares, figura emblemática na resistência em Palmares, lado a lado com nomes da atualidade, a exemplo de Dona Eva e Dona Uia, lideranças do Quilombo de Rasa, localizado em Búzios, na Região dos Lagos.
A curadora e historiadora Lydia de Carvalho explica que o objetivo central da mostra é quebrar o estereótipo de que o quilombo é uma relíquia do passado. O desafio é apresentar comunidades pulsantes, dinâmicas e extremamente plurais. Ela pontua que a intenção é deslocar o olhar do público, atualizando a compreensão sobre o que significa viver em um quilombo hoje.
Um dos elementos de maior impacto visual é uma instalação em formato de árvore. Cada ramo e folha da estrutura abriga fotos de mulheres quilombolas contemporâneas. A disposição artística não foi aleatória; serve como uma metáfora de construção coletiva, sugerindo que, embora cada uma dessas trajetórias seja única, todas compartilham raízes profundas e uma luta comum pela manutenção de seus territórios e direitos.
Além disso, o espaço dedica uma atenção especial à cartografia da resistência. Um mapa detalhado sinaliza as mais de 50 comunidades quilombolas com reconhecimento oficial no território fluminense. O objetivo é que, ao observar a dispersão dessas áreas, o visitante consiga materializar a presença dessas populações que, apesar de estarem imbricadas na vivência urbana e rural do Rio de Janeiro, acabam sendo invisibilizadas no cotidiano.
A resposta das pessoas tem superado as expectativas da curadoria. O fluxo de visitantes inclui desde o público espontâneo até grupos escolares, abrangendo diferentes faixas etárias e contextos sociais. Segundo o relato de quem acompanha a exposição, o sentimento predominante tem sido de identificação e emoção diante da persistência da luta quilombola.
Para quem deseja visitar, a mostra segue instalada no Museu da Justiça até o dia 28 de agosto. A entrada é gratuita e a classificação indicativa é livre, permitindo que a história dessas mulheres alcance um público amplo durante toda a temporada no centro da cidade.












