Enquanto muitos trabalhadores brasileiros desfrutam do merecido descanso em feriados como o 1º de maio, uma categoria essencial permanece em atividade contínua. Essas pessoas dedicam-se ao cuidado de crianças, idosos e à manutenção do ambiente doméstico, garantindo a sobrevivência e o bem-estar familiar.
Contudo, essa função vital para a sociedade revela uma profunda desigualdade de gênero. Dados oficiais do IBGE indicam que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, dedicando quase dez horas a mais por semana a essas tarefas em comparação aos homens.
As Raízes Históricas da Sobrecarga Feminina
Para Cibele Henriques, professora de Serviço Social da UFRJ e co-fundadora do Observatório do Cuidado, essa disparidade tem raízes históricas profundas. Ela descreve o trabalho de reprodução, feito pelas mulheres, como o “útero motor do capitalismo”, essencial para gerar capital humano.
A ideia de um “amor materno mítico”, reforçada culturalmente, transforma essa obrigação em um sentimento. No entanto, como destacou a filósofa feminista Silvia Federici, o que é chamado de amor, na verdade, é trabalho não pago, gerando uma sobrecarga psíquica, física e social.
Essa exploração do tempo feminino compromete a saúde mental e social das mulheres. Cibele argumenta que, embora permeadas por afeto, as tarefas de cuidado justificam a expropriação do tempo e da mão de obra feminina, tornando-as grandes doadoras de trabalho não remunerado.
A Realidade da “Escala 7×0”
A discussão sobre regimes de trabalho como a escala 6×1 é importante, mas as mulheres enfrentam uma realidade ainda mais desafiadora: a “escala 7×0”. Mesmo em dias de folga ou feriados, seu tempo é frequentemente consumido por tarefas domésticas e de cuidado.
Isso se aplica tanto às mulheres que se dedicam exclusivamente à família quanto àquelas que conciliam um emprego remunerado com as demandas do lar. O tempo da mulher, em essência, nunca é usado apenas para si, refletindo uma doação constante.
Essa sobrecarga é ainda mais acentuada para mulheres negras e periféricas, que muitas vezes não possuem os mesmos recursos para delegar essas tarefas. Para elas, o trabalho de cuidado é imposto como uma obrigação inadiável.
A Construção Social da Obrigação
Cibele explica que essa obrigação associada ao cuidado é construída desde a infância, através da diferenciação de brinquedos. Carrinhos para meninos e panelinhas para meninas já dissociam a esfera pública da privada, atribuindo o doméstico à mulher.
Essa construção social reforça a ideia de que o cuidado é inerente ao feminino, perpetuando um ciclo de desigualdade. Compreender e desconstruir esses padrões é fundamental para promover uma distribuição mais equitativa do trabalho de cuidado na sociedade.





































































































