Rio de Janeiro (RJ) – Conciliar a rotina de trabalho e as responsabilidades com a criação dos filhos frequentemente força mulheres a deixarem o projeto de uma graduação em segundo plano. Para muitas, o desejo de cursar o ensino superior torna-se um plano represado por anos, aguardando o momento em que as prioridades domésticas dão espaço a uma nova tentativa de formação. Esse é o caso de Zélia José dos Santos, de 72 anos, que, após uma vida dedicada à família, decidiu que era hora de investir em si mesma.
Zélia é uma das alunas do pré-vestibular social mantido pelo Sindicato dos Servidores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Sintuperj). Com o sonho de cursar serviço social, ela encara o Enem como um desafio superável. Para se preparar para as provas, a dona de casa recorreu ao curso popular localizado no campus Maracanã. A confiança, ela admite, é fruto de uma dedicação persistente após acumular várias participações no exame em anos anteriores.
A presença de estudantes com o perfil de Zélia é expressiva no curso. Segundo Carlos Eduardo Silva de Lourdes, responsável pela área administrativa da instituição, mulheres mais velhas representam entre 20% e 30% do corpo discente. O projeto, fundado em 1998 originalmente para atender servidores da universidade, expandiu seu alcance para a comunidade externa e já contabiliza mais de 2 mil aprovações em instituições públicas.
O apoio oferecido pelo Sintuperj vai além das salas de aula. A estrutura busca mitigar as vulnerabilidades dos alunos, oferecendo mensalidades de R$ 162, descontos para funcionários da Uerj e bolsas integrais. A logística de permanência inclui o fornecimento de cestas básicas, viabilizadas por arrecadações em aulões mensais. Raíssa Tabajara, coordenadora pedagógica, destaca que o suporte psicossocial e as atividades de autocuidado são fundamentais, especialmente para quem está afastada do ambiente acadêmico há muito tempo.
Essa rede de acolhimento é vital para alunas como a técnica de enfermagem Paula Cristina dos Santos, de 55 anos. Mãe na adolescência, ela busca hoje uma vaga no curso de medicina. Mesmo enfrentando as limitações físicas causadas pela fibromialgia, a estudante mantém o foco no objetivo. Ela já alcançou pontuação para fisioterapia, mas não abre mão de sua meta original na área da saúde.
Para a maratona de provas que se inicia neste domingo (8), com 90 questões de linguagens e ciências humanas, além da redação, os estudantes reforçam o preparo técnico. Érika Rodrigues, professora de redação, alerta para a necessidade de construir argumentos coerentes. Segundo ela, o domínio de um repertório sociocultural sólido é essencial, desde que articulado com o tema proposto. Neste ano, as aulas deram atenção especial a eixos como tecnologia e cidadania, instruindo os alunos a identificarem a desinformação em textos — uma habilidade que transcende a prova e alcança o exercício da cidadania.












