Guarapari (ES) – A médica Aleida Guevara, filha de Che Guevara, afirmou em entrevista à Agência Brasil que, em Cuba, cresce a sensação de que os Estados Unidos podem invadir a ilha a qualquer momento. Segundo ela, essa percepção se relaciona ao comportamento considerado imprevisível do presidente Donald Trump, que, na avaliação da médica, não permite que ninguém estime com segurança o que pode acontecer.
Aleida disse que os cubanos convivem com a ideia de ataque constante. “Sabemos que podem nos atacar a qualquer momento porque são loucos”, afirmou. Ela completou o raciocínio dizendo que espera que essa “loucura” não chegue ao extremo e que os Estados Unidos percebam “o tipo de inimigos” que Cuba pode representar.
Durante a fala, Aleida recorreu a uma frase atribuída a Fidel Castro, para sustentar a visão de que a resposta de um povo pode abalar a injustiça. “Porque Fidel disse: ‘Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme’”, declarou.
Em visita ao Brasil, Aleida comentou a situação da ilha após o endurecimento do bloqueio econômico e energético, medida que, conforme ela, deixou Cuba por três meses sem receber petróleo. Ela também avaliou que, apesar das dificuldades, a maior parte da população segue fiel aos princípios da Revolução de 1959, que instituiu o primeiro Estado de inspiração socialista na América Latina, desafiando a hegemonia dos Estados Unidos na região.
A médica, que tem 65 anos, falou ainda sobre a questão da democracia em Cuba, a solidariedade internacional recebida pelo país e o que significa ser filha de Che Guevara no território que seu pai ajudou a construir. Em sua visão, a presença do legado do líder revolucionário continua marcante, sobretudo entre as crianças, mesmo que a convivência familiar com ele tenha sido limitada.
A entrevista foi conduzida com perguntas da Agência Brasil. Na primeira delas, a emissora perguntou o que trouxe Aleida ao país. Ela respondeu que veio ao 4º encontro do MPA, o Movimento dos Pequenos Agricultores, e descreveu o evento como “incrivelmente interessante”. Segundo Aleida, o Brasil ainda tem muitos problemas a resolver, mas o principal seria a questão da terra.
Para Aleida, a reforma agrária permanece como o ponto mais sensível. Ela afirmou que, sem uma reforma agrária profunda e real, seria difícil resolver o problema da alimentação e da soberania alimentar. Nesse contexto, ela disse que o movimento campesino brasileiro apoia Cuba e relatou que, no encontro, o tema do socialismo apareceu de maneira direta.
“E ainda identificam Cuba como um farol de liberdade e dignidade humanas”, declarou Aleida, conectando a percepção do público do evento ao que ela considera relevante para uma cubana. Para ela, esse tipo de reconhecimento tem peso por se relacionar com a história política e simbólica da ilha.
Quando a Agência Brasil perguntou se ela pretendia ficar mais tempo no Brasil, Aleida respondeu que não. Ela indicou que voltaria na sexta-feira, dia 15, e justificou a decisão com dois motivos. O primeiro foi a quantidade de tarefas pessoais. O segundo, e mais duro, foi a ameaça de ataque. “A pior coisa que poderia me acontecer na vida é meu próprio país ser atacado e eu não estar lá”, disse.
Aleida afirmou que isso a deixaria “louca” e que, por isso, entende que precisa estar em Cuba. A fala reforça o tom de urgência que atravessa a entrevista, já que a médica coloca o risco de confronto como uma preocupação imediata.
Na sequência, a Agência Brasil perguntou se existe, de fato, um sentimento de que a invasão pode ocorrer ou se a percepção seria de que os Estados Unidos não fariam isso. Aleida respondeu que os cubanos vivem “nesse lugar histórico” há muitos anos, muito perto do que ela chama de império americano. Na avaliação dela, o presidente Trump seria “completamente fora de si” e “totalmente louco”, o que, segundo ela, dificulta qualquer tentativa de previsão.
A médica disse que, quando se tem um inimigo, normalmente se consegue analisá-lo e estudar o que ele diz. “Com esse homem, você não consegue nem avaliar o que ele diz”, afirmou. Para Aleida, portanto, a falta de previsibilidade alimenta o temor. Ela insistiu novamente que Cuba não se considera ingênua, dizendo que sabe que pode ser atacada a qualquer momento por causa do que descreve como comportamento irracional.
Mais adiante, a entrevista voltou ao tema do bloqueio. A Agência Brasil lembrou que, segundo a acusação frequente nos debates internacionais, o bloqueio de mais de seis décadas dos Estados Unidos busca levar o povo cubano a se colocar contra o governo. A pergunta foi se isso seria possível. Aleida respondeu que sempre existe alguém que se convence dessa narrativa, mas sustentou que a maioria da população, “felizmente”, saberia identificar quem seria o inimigo.
Ela também mencionou que, quando o cansaço da população cresce diante da situação, os Estados Unidos podem reagir com “algum absurdo” capaz de provocar reação nas pessoas. Na fala, Aleida citou ainda que há contrarrevolucionários em Miami. Segundo ela, alguns apoiavam a invasão no passado, mas deixaram de apoiar depois que passaram a ver familiares prejudicados pelo bloqueio, com falta de gasolina e medicamentos.
A médica disse que, mesmo quando essas pessoas teriam dinheiro para comprar, não conseguem obter o que precisam. Em seguida, Aleida afirmou que os Estados Unidos sempre teriam sido promotores da unidade em Cuba, atribuindo essa consequência à “idiotice” como inimigos e à “falta de inteligência”. A argumentação dela se apoia em exemplos de territórios sob influência dos Estados Unidos, como Haiti e Porto Rico.
Ela citou um episódio envolvendo Porto Rico em 2017, quando Trump teria visitado o território após um desastre natural e arremessado rolos de papel em um centro de distribuição de ajuda. Aleida acrescentou que, segundo o relato dela, Trump deixou 80% de Porto Rico sem eletricidade. A médica usou o episódio como referência para sustentar que a forma de agir dos EUA reforçaria a desconfiança em relação ao que poderia ocorrer com Cuba.
Ao falar da cultura cubana, Aleida mencionou José Martí, líder da independência de Cuba. Ela disse que Martí defendia que “somente um povo culto pode ser verdadeiramente livre”, porque não seria facilmente manipulado. Para ela, o povo cubano teria um nível significativo de cultura, o que dificultaria a aceitação de narrativas externas.
Ela também trouxe um paralelo com a França, afirmando que o país teria vários territórios chamados de “ultramarinos”, que seriam colônias. Segundo Aleida, esses lugares não buscariam independência por medo de repetirem o que teria ocorrido com o Haiti, descrito por ela como o primeiro país livre da América Latina e como vítima de cerco e bloqueio das potências europeias por sua ousadia.
Na mesma linha, Aleida afirmou que o bloqueio contra Cuba existiria para impedir que outro país se atrevesse a se tornar socialista. O objetivo, segundo ela, seria servir de exemplo às demais nações.
Quando a Agência Brasil perguntou como estava a situação da ilha naquele momento, Aleida respondeu que os problemas econômicos eram muito sérios. Ela disse que, quando se bloqueia uma ilha e se impede a entrada de petróleo, “tudo para”. Naquele período, ela relatou que não havia apagões completos, mas sim fornecimento intermitente de energia, com horas de luz.
Ela acrescentou que, nas províncias, cidades teriam ficado 72 horas sem eletricidade. A médica então colocou uma pergunta ao longo da explicação, questionando como seria possível conservar comida em uma situação como aquela.
Em outro bloco da entrevista, a Agência Brasil abordou a solidariedade internacional em relação a Cuba. Aleida disse que a ajuda teria sido imediata e afirmou que a ideia de que Cuba semeia solidariedade seria verdadeira. Para ela, a história começou com a Escola Latino-Americana de Medicina, a Elam, quando estudantes latino-americanos teriam tido oportunidade de se tornarem médicos em Cuba gratuitamente.
Segundo Aleida, essa iniciativa gerou apoio rápido. Ela relatou que recebeu duas malas de medicamentos de estudantes uruguaios formados na Elam. Também citou um exemplo local no Brasil, dizendo que, em Uberlândia, Minas Gerais, dois sindicatos se uniram e enviaram inúmeras malas de medicamentos.
A Agência Brasil perguntou sobre esse apoio da sociedade civil e como se daria a solidariedade dos governos. Aleida respondeu que governos seriam mais complicados, pois vêm e vão. Ainda assim, ela disse que o que interessa é a solidariedade do povo, e que governos teriam limitações, já que a política internacional se moveria conforme o que convém a cada momento.
Na América Latina, ela citou o governo mexicano. Aleida afirmou que a presidente Claudia Sheinbaum teria dignidade e que, segundo ela, diz calmamente que vai continuar ajudando o povo cubano. Ela disse que Sheinbaum já enviou vários navios com alimentos.
A médica também mencionou os russos, afirmando que, apesar da guerra com a Ucrânia e da pressão europeia, teria sido enviado um navio com petróleo e que outro carregamento estaria a caminho. Ela citou ainda a Itália, onde, segundo sua descrição, brigadas de solidariedade teriam organizado ações para levar ao país remédios, suprimentos para hospitais e comida.
Na sequência, Aleida disse que Cuba também receberia apoio dos chineses, que teriam perdoado a dívida. Ao mencionar esses exemplos, ela consolidou a ideia de que existe solidariedade internacional em diferentes frentes, ainda que com formatos variados.
A Agência Brasil trouxe então a crítica que, segundo a emissora, Cuba costuma receber no Brasil, especialmente por parte de mídia e de partidos que acusam o país de não ser uma democracia. Aleida respondeu com uma definição baseada na etimologia do termo. Ela disse que democracia vem do grego e significa poder do povo.
Na fala, ela questionou em que país haveria poder do povo do modo como descreve. Para Aleida, democracia seria quando o povo decide algo e o governo executa essa decisão. Ela perguntou onde esse poder do povo estaria de fato. Também afirmou que democracia envolveria igualdade de condições para ser julgado, sem importar quanto dinheiro a pessoa tenha no banco.
Ela concluiu esse bloco dizendo que, quando o povo brasileiro entender o que seria democracia de verdade, perceberia que, em Cuba, existiria uma democracia verdadeira. Na visão dela, seria uma democracia popular e aberta, porque o povo governaria.
Por fim, a entrevista chegou ao contato de Aleida com o pai, Che Guevara. Ela disse que teve pouco contato com ele. Ainda assim, apontou que teve uma mãe “espetacular”, Aleida March, viúva de Che, que a ensinou a amá-lo, conhecê-lo e admirá-lo. Para Aleida, se hoje é uma mulher socialmente útil, isso seria resultado da educação recebida.
Ela descreveu a mãe como de origem camponesa, com formação acadêmica que considerou extraordinária. Aleida March teria sido combatente da resistência na clandestinidade e, depois, do Exército rebelde. A médica disse que a mãe estudou história, além da formação em pedagogia que já possuía, e reforçou que ela seria cubana “de corpo e alma”.
Aleida também relatou que a mãe ficou sozinha cedo, com quatro filhos pequenos, após a morte de Che Guevara. Ela contou que, quando um camarada morre, os outros camaradas tentam aliviar a pressão com ajuda material. No entanto, segundo ela, a mãe não permitia que os filhos recebessem mais do que outras famílias, diante do que existia em Cuba.
“Isso porque ela seguiu as instruções do meu pai”, disse Aleida. Ela afirmou que a família comia o que todos em Cuba comiam e que não havia privilégios. Ao mesmo tempo, a médica disse que a família foi privilegiada pelo carinho e pela admiração do povo cubano.
Ela afirmou que, nesse aspecto, percebe que Che Guevara ainda estaria muito vivo para o povo. Mesmo sem desfrutar da presença do pai, Aleida disse que ele permanece lembrado, com uma presença forte em Cuba, principalmente nas crianças. A entrevista termina, assim, com a ideia de que o legado de Che continua atravessando o cotidiano da ilha, mesmo em meio ao bloqueio e às tensões políticas.
































































































