Cachoeiro do Itapemirim (ES) – O estado crítico das águas globais exige uma resposta imediata que articule governos, setor privado e comunidades litorâneas. O diagnóstico consta na terceira edição da Avaliação Mundial dos Oceanos, um levantamento extenso que reuniu o conhecimento de mais de 550 especialistas de 86 países. Os dados, que compilam as transformações observadas entre 2018 e 2023, revelam um cenário de deterioração acelerada em múltiplos indicadores, do aumento do nível do mar à contaminação por resíduos plásticos.
A velocidade das mudanças surpreende. A taxa de elevação do nível médio do mar subiu para 4,3 milímetros anuais no período entre 2013 e 2023. Para efeito de comparação, a média registrada entre 1993 e 2018 era de 3,2 milímetros por ano. Esse cenário é acompanhado por uma crise sem precedentes nas regiões polares, onde o derretimento atingiu marcas recordes consecutivas nos últimos anos, alterando profundamente a circulação oceânica e os padrões climáticos globais.
Ronaldo Christofoletti, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo e coautor brasileiro do documento, aponta que o oceano, antes visto como o grande regulador térmico do planeta, demonstra sinais claros de exaustão. O aquecimento das águas força o deslocamento de espécies marinhas em busca de zonas mais frias, o que desestabiliza a pesca artesanal e industrial. No Brasil, os reflexos dessa instabilidade já são sentidos no aumento de eventos climáticos extremos no Atlântico tropical, na fragilização de recifes de coral e na maior vulnerabilidade de cidades costeiras.
A poluição por plásticos, que antes era uma preocupação restrita às faixas de areia, expandiu sua dimensão destrutiva. O estudo indica que a quantidade de espécies afetadas pelos resíduos saltou de 1,4 mil para mais de 4 mil em apenas alguns anos. Por aqui, esse desafio se soma a falhas crônicas no saneamento e ao descarte incorreto de resíduos urbanos, que contaminam rios e chegam diretamente ao litoral. O impacto na biodiversidade reflete diretamente na mesa das pessoas: a fatia de estoques pesqueiros considerados biologicamente sustentáveis encolheu de 64,6% em 2019 para 62,3% em 2021.
O que antes era classificado como fenômeno excepcional, hoje integra a rotina de quem depende do mar para sobreviver. Ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes e intensas, pressionam ecossistemas inteiros e colocam em xeque a segurança alimentar de populações que vivem da pesca. O relatório deixa claro que a janela para reverter esse processo de aceleração climática está se fechando, exigindo medidas práticas que ultrapassem os acordos formais e alcancem a gestão real das zonas costeiras.





























































































