Cancún, México – A indústria cinematográfica da Argentina atravessa um dos períodos mais críticos de sua trajetória, marcada por uma redução drástica no investimento público que ameaça a continuidade do cinema de autor. Durante a entrega dos Prêmios Platino em Cancún, no México, Hernán Findling, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, expôs como o esvaziamento de órgãos de fomento está empurrando a produção nacional para uma dependência exclusiva das plataformas comerciais de streaming.
O desmonte da estrutura de fomento
O cenário atual decorre de mudanças profundas implementadas pela gestão de Javier Milei. O Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais, responsável por décadas de suporte ao setor, sofreu um corte severo em seus subsídios. Findling relata que a produtividade caiu de forma drástica, passando de uma média de 70 a 100 longas-metragens por ano para apenas 10 ou 12 produções. Esse encolhimento, segundo ele, sufoca justamente os filmes que carregam a identidade cultural do país, priorizando apenas conteúdos com apelo imediato para empresas como Netflix, Disney e Amazon.
O presidente da Academia ressalta que, embora as plataformas sejam fundamentais para manter técnicos empregados e garantir visibilidade, elas não podem ser a única alternativa. O modelo atual força os cineastas a trabalharem de maneira precária, recorrendo a financiamentos coletivos ou produções realizadas apenas aos finais de semana, em um retorno a práticas de três décadas atrás. Além disso, existe o receio de que as empresas estrangeiras concentrem o controle sobre quais histórias podem ser contadas, restringindo a diversidade criativa local.
A disputa ideológica nos bastidores
Santiago Marino, especialista da Universidade de Santo André, reforça essa preocupação ao alertar para o poder de curadoria das plataformas, que decidem unilateralmente a disponibilidade das obras em seus catálogos. Para os profissionais do setor, esse estrangulamento financeiro não é apenas uma medida econômica, mas parte de uma batalha cultural. Findling argumenta que o atual governo argentino confunde o trabalho cinematográfico com militância política, ignorando que o audiovisual é uma engrenagem econômica que gera retorno financeiro superior ao capital investido.
Apesar do ambiente hostil, o talento argentino continua sendo reconhecido internacionalmente. O sucesso de produções como a série O Eternauta e o prestígio alcançado por nomes como Ricardo Darín e Guillermo Francella nos Prêmios Platino provam a qualidade técnica de um mercado forjado sob o sistema do instituto nacional. Contudo, a sobrevivência agora depende de estratégias de crise, como a busca por coproduções internacionais, especialmente com países latino-americanos, para compensar a ausência de recursos internos.
Resistência e futuro do setor
Sem o apoio estatal e com o fim das cotas de tela, a Academia de Cinema da Argentina assumiu um protagonismo inédito nas negociações internacionais. O objetivo é levar projetos para festivais, como os de Málaga e Roterdã, mantendo a produção viva através de parcerias onde a Argentina entra com a expertise técnica, a música e a pós-produção. O produtor enfatiza que, se antes o país contava com dinheiro, agora o ativo principal é o talento de seus profissionais.
Mesmo diante das dificuldades, Findling mantém um otimismo cauteloso. Ele traça um paralelo com episódios anteriores de congelamento de verbas em outros países, como o Brasil, e acredita que o atual estado de exceção é temporário. Para ele, o cinema argentino é um pilar fundamental da identidade nacional e, ainda que o caminho seja árduo, a indústria encontrará formas de se reerguer e retomar seu protagonismo no cenário cultural global.






































































































