Rio de Janeiro (RJ) – No dia 18 de maio de 1946, a psiquiatria brasileira mudou de rumo. Sob a liderança da médica alagoana Nise da Silveira, nasciam ateliês terapêuticos que trocavam o isolamento, a lobotomia e os eletrochoques pela potência da expressão artística. Oito décadas depois, essa iniciativa pioneira não apenas sobrevive, mas se consolida como um marco de dignidade humana no bairro do Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro, onde hoje funciona o Museu de Imagens do Inconsciente.
O museu abriga atualmente o maior acervo mundial de sua categoria, reunindo 400 mil obras produzidas por pacientes. Deste total, 128 mil peças são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), atestando a relevância cultural e histórica desse trabalho. Segundo o Feed Editoria, o método de Nise da Silveira, que prioriza a escuta e a criatividade, tornou-se uma referência internacional ao tratar o sofrimento psíquico com humanidade.
A continuidade de um método vivo
Os ateliês não são peças de museu, mas espaços de atividade constante. Eurípedes Junior, coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, explica que o local acolhe pessoas que enfrentam dificuldades emocionais temporárias ou permanentes. A produção artística ali gerada serve como fonte de pesquisa sobre o mundo interno do ser humano, transcendendo a dicotomia entre saúde e doença. É uma investigação sobre o imaginário coletivo que pertence a todos nós.
Atualmente, 55 pessoas frequentam o espaço regularmente. A psicóloga e coordenadora Adriana Lemos observa transformações profundas na vida desses indivíduos. Três deles iniciaram faculdades este ano, em cursos como museologia, pedagogia e filosofia. Para a equipe, esse sucesso acadêmico reflete uma reconquista da cidadania e uma aproximação mais digna com suas famílias, algo que a terapia ocupacional e o suporte do museu viabilizaram ao longo dos meses.
Expressão além da palavra
O método de Nise da Silveira rejeita a posição passiva do paciente. Aqui, o usuário do Sistema Único de Saúde é tratado como cliente, alguém que detém o poder de escolha sobre sua própria jornada. Lemos destaca que a pintura, em especial, preenche lacunas onde a linguagem verbal falha. Muitas vezes, o sofrimento é tão profundo que nenhuma palavra consegue contê-lo, mas as cores e formas o materializam.
Sete ateliês funcionam hoje no museu, oferecendo desde teatro e ritmologia até cerâmica e rodas de conversa. A escolha da atividade cabe inteiramente ao cliente. Essa liberdade de expressão é o que permite o surgimento de talentos como Israel Alves Correia, que frequenta o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro. Israel desenvolveu uma técnica autoral de escultura com materiais reaproveitados, criando dragões complexos que revelam um mundo interior rico e organizado.
O conceito da Emoção de Lidar
Lula Wanderley, psiquiatra que conviveu com Nise da Silveira por oito anos, descreve os ateliês como a essência de qualquer tratamento possível. Ele relembra a rotina na Casa das Palmeiras, instituição de reabilitação em regime aberto que serviu como laboratório para as ideias da médica. Para Wanderley, não existe cura sem uma relação humana genuína, um ambiente onde o convívio e a criatividade ocupem o centro do processo terapêutico.
Essa visão é compartilhada por profissionais como a terapeuta ocupacional Eni Nascimento, que define o ateliê como um ancoradouro. É o local onde o indivíduo transita entre a sanidade e a loucura com segurança. Ao focar no fazer artístico e não na patologia, o espaço permite que o sujeito se mostre, se organize e, acima de tudo, se sinta vivo.
Comemorações e o futuro
Para marcar os 80 anos dessa trajetória, o museu preparou uma série de eventos gratuitos que começam em 18 de maio, durante a 24ª Semana Nacional de Museus. O tema deste ano, “Museus: unindo um mundo dividido”, ressoa com a própria história de Nise da Silveira. Além de exposições como “Geometria e Cor”, de Manoel Godin, e o lançamento de um documentário sobre Emygdio de Barros, o museu planeja abrir as portas de seus ateliês mensalmente para o público geral.
O objetivo é claro: internacionalizar o legado da psiquiatra. O Feed Editoria aponta que negociações para a publicação de livros de Nise em inglês, francês e espanhol estão em andamento. A meta da Sociedade Amigos do Museu é que o “método da Emoção de Lidar” deixe de ser apenas um símbolo da luta antimanicomial e passe a ser integrado, de fato, nas práticas acadêmicas e clínicas ao redor do mundo, redefinindo o que significa cuidar da mente humana.


























































































