Brasília (DF) – No palco do Teatro dos Bancários, em Brasília, o ator Déo Garcez assume a postura e o tom de voz de Luiz Gama, o lendário advogado e jornalista que desafiou o sistema escravocrata brasileiro no século XIX. Ao repetir a máxima de que a liberdade e a igualdade não são privilégios, mas direitos inerentes a qualquer ser humano, ele não apenas interpreta um personagem, mas ecoa uma urgência que atravessa gerações. A encenação, que integra o espetáculo Luiz Gama: uma voz pela liberdade, serviu de cenário para um debate sobre como o pensamento desse intelectual abolicionista permanece como uma ferramenta vital de resistência no país.
A apresentação ocorreu logo após o 13 de maio, data que marcou 138 anos da abolição oficial da escravatura. Para Déo Garcez, que escreve e protagoniza a obra há mais de uma década, o teatro cumpre uma missão que vai além do entretenimento. Ele vê na arte um caminho para promover transformações sociais e confrontar o preconceito, que, segundo o ator, insiste em se manifestar sob novas máscaras na sociedade contemporânea. Essa visão é compartilhada por estudiosos que analisam a trajetória de Gama como um espelho para os desafios atuais.
Ideias como força motriz
O sociólogo Jessé Souza, presente no evento, defende que a escravidão não é apenas um capítulo superado dos livros de história, mas uma estrutura que ainda molda o comportamento e as ideias no Brasil. Para o especialista, o racismo atua como a alma do país, operando sob uma fachada de democracia que dissimula formas modernas de exploração. A estratégia de desumanizar o outro, típica do período colonial, ainda exige que a população negra mantenha uma vigilância constante e uma luta diária contra a animalização de seus corpos.
A força da atuação de Luiz Gama residia, justamente, em sua habilidade de utilizar o próprio arcabouço jurídico da época para implodir o sistema que sustentava a escravidão. Enquanto o Estado brasileiro daquele período operava de forma inescrupulosa, Gama encontrava brechas em legislações como a Lei Feijó, de 1831, e a Lei do Ventre Livre, de 1871. Com esse conhecimento, ele conseguiu garantir a liberdade de mais de 500 pessoas que eram mantidas escravizadas de maneira ilegal, provando que o protagonismo da abolição pertenceu à própria comunidade negra, e não a concessões de figuras da elite.
Reconhecimento internacional
O impacto do trabalho do abolicionista é tão profundo que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) está em fase final de avaliação para reconhecer os manuscritos de Gama como Patrimônio Documental da Humanidade. O acervo, intitulado Presença negra no Arquivo: Luiz Gama, articulador da liberdade, reúne 232 documentos mantidos pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo. Entre cartas de emancipação e registros de tráfico ilegal, o material documenta a coragem de um homem que via na imprensa uma arma poderosa para denunciar os desvios de magistrados e advogados.
Como recorda o pesquisador Artur Antônio dos Santos Araújo, doutorando em Direito pela Universidade de Brasília, a trajetória de Gama é um lembrete incômodo para a elite brasileira. O abolicionista não apenas defendia a República como único regime possível para a igualdade, mas também atuava de forma gratuita em favor dos explorados. Sua postura, muitas vezes solitária e sob constante ameaça de morte, reflete uma ética inabalável que, segundo o pesquisador, deve inspirar a comunidade negra a resgatar sua consciência racial e a exigir reparações concretas por um passado que deixou o povo negro sem acesso a direitos básicos, educação ou trabalho digno.
Educação e resistência
Para Déo Garcez, dar vida a Luiz Gama é um exercício contínuo de autoconhecimento. O ator relata que, em sua própria trajetória, o teatro foi o veículo que permitiu identificar o racismo que sua família sofria, mas que, por falta de letramento racial, não era nomeado. Ele enfatiza que a educação antirracista é o antídoto contra os apagamentos intencionais promovidos ao longo dos séculos. Ao trazer as palavras de Gama para o presente, o artista convoca o público a não se omitir diante das injustiças cotidianas.
A lição que permanece, conforme pontuado pela Feed Editoria, é que a luta pela igualdade exige coragem para enfrentar o sistema e inteligência para utilizar todas as ferramentas disponíveis, da arte ao Direito. Luiz Gama, que aprendeu a ler e escrever clandestinamente, provou que o conhecimento é a chave da emancipação. Em um país que ainda naturaliza a barbárie, o legado do advogado segue como um chamado à ação, lembrando que a liberdade, para ser plena, precisa ser conquistada e defendida em cada esfera da vida social.







































































































