Macaé (RJ) – Um pequeno marsupial, cujas listras nas costas guardam segredos biológicos milenares, foi oficialmente descrito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Batizada de cuíca-de-três-listras-do-Rio de Janeiro, a espécie habita exclusivamente trechos da Baixada Litorânea e do Litoral Norte fluminense. O achado científico ganhou destaque nas páginas do Journal of Mammalogy, publicação de prestígio internacional ligada à Universidade de Oxford.
A descoberta tem contornos curiosos. Os primeiros exemplares foram capturados ainda entre 2010 e 2011, mas, na época, o grupo de cientistas não suspeitou da singularidade do bicho. A crença era de que se tratava de uma espécie já catalogada. Foi apenas após uma bateria de análises genéticas profundas que a equipe percebeu que o espécime de Cabiúnas, em Macaé, possuía uma assinatura biológica distinta de qualquer outra cuíca da Mata Atlântica do Sudeste.
Além da genética, a morfologia do animal revelou pistas cruciais. O padrão de listras no dorso é diferenciado — a linha preta central é mais curta e se interrompe antes de alcançar o focinho. Somando isso ao formato específico do crânio e à dentição peculiar, os pesquisadores cravaram a nova classificação. Estimativas apontam que o marsupial surgiu há cerca de 1,78 milhão de anos, durante o Pleistoceno, dividindo o cenário evolutivo com mamíferos como o mico-leão-dourado.
O professor Pablo Gonçalves, que orientou o estudo ao lado das pesquisadoras Isabelle Chagas Vilela Borges e Carina Azevedo Oliveira Silva, acredita que o isolamento da espécie se deve a um descompasso nos estudos acadêmicos. Enquanto grandes parques nacionais recebem atenção constante, vastas áreas litorâneas fora dos radares dos grandes centros de pesquisa permanecem como caixas-pretas da biodiversidade brasileira.
O desafio agora é a sobrevivência. O habitat do marsupial, pesando poucas dezenas de gramas e dedicado a uma dieta de insetos, está espremido entre o Terminal Cabiúnas de Óleo e Gás e o tráfego pesado da BR-101. Como não há registros do animal em áreas de proteção integral, o cenário é de vulnerabilidade.
A solução proposta pela equipe passa pela criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as RPPNs. A ideia é conciliar a conservação florestal com atividades econômicas, incluindo o ecoturismo, criando corredores que conectem os fragmentos de mata remanescentes. Para os biólogos, o caso de Cabiúnas é um lembrete: novas espécies ainda habitam sombras muito próximas à nossa rotina, bastando um olhar científico mais atento às regiões que o progresso industrial tentou, em vão, apagar.






























































































