Guarulhos (SP) – O ativista ambiental e de direitos humanos Thiago Ávila desembarcou no Aeroporto de Guarulhos, na noite desta terça-feira (11). Ele foi libertado de uma prisão ilegal em Israel, decisão que o governo brasileiro condenou. Ávila era um dos sete brasileiros a bordo da Global Sumud Flotilla (GSF), operação de ajuda humanitária ao povo palestino.
A chegada estava prevista para 16h, mas o ativista ficou retido nas dependências da Polícia Federal. Segundo o relato, o motivo seria responder a um interrogatório — procedimento que, de acordo com Agência Brasil, não foi aplicado no retorno de Mandi Coelho, também integrante da flotilha.
“Estado genocida”, diz Ávila
Em entrevista, Ávila afirmou que não era a primeira vez que era detido a mando de Israel. Ele também disse que 50 embarcações devem partir da Turquia em breve. Para o ativista, a flotilha serve como evidência do tratamento dispensado pelo Estado israelense: “A flotilha é o exemplo mais pedagógico de que estamos tratando com um Estado genocida”, declarou.
Ávila citou assassinatos que atingem, inclusive, crianças e mulheres em grande número. Ele mencionou ainda que crianças pequenas também teriam sido encarceradas, apontando isso como “outra prova das transgressões praticadas por Israel”. A Organização das Nações Unidas (ONU) classificou a matança agravada por Israel, desde outubro de 2023, como “destruição e sofrimento de níveis sem precedentes”.
Segundo a ONU, a violência tem como elementos a falta de acesso à moradia, alimentos, atendimento médico básico, água potável e ao convívio em comunidade.
Confinamento e agressões relatadas
Ávila viajava em um navio da GSF quando foi levado à força por militares israelenses, acompanhado do palestino-espanhol Saif Abukeshek. Nesta terça-feira, ele disse que o grupo desviou do caminho para Gaza para escapar de uma tempestade, por isso estava em Creta. Os dois foram separados dos demais e transferidos para a Grécia.
O grupo brasileiro iniciou a viagem a Gaza a partir de Barcelona, em 12 de abril. Já no confinamento, Ávila relatou que passou grande parte do tempo vendado, sem saber se era noite ou dia, acorrentado por quatro algemas e com movimentos limitados em uma cela solitária.
Ele confirmou relatos que chegaram pelo movimento pró-Palestina de que teria sido agredido fisicamente e que chegou a desmaiar duas vezes. Diariamente, segundo ele, via torturas contra palestinos e ouvia dos militares israelenses que o tratavam como “uma decisão deles”, citando um “direito judicial” para agir dessa forma.
“Diziam que era música, perguntavam se eu estava ouvindo a cantoria”, contou, acrescentando que as torturas a que ele e Abukeshek foram submetidos “não têm nem comparação” com as experiências dolorosas enfrentadas pelos palestinos. Ávila também relatou falas diretas: “Eles diziam diretamente que queriam me matar, me deixar 100 anos preso e que iriam se livrar de mim o quanto antes”.
Para Ávila, o problema é o custo político que Israel não conseguiria bancar. “Eles não conseguem pagar o custo político disso, porque, com os palestinos, com a campanha de desumanização, por conta da cumplicidade dos governos do mundo, eles acreditam que podem pagar o custo político de torturar [a população palestina]”, disse.
Denúncias e pedidos por nomes
Defendendo que o mundo reconheça o tormento prolongado dos palestinos, Ávila afirmou que é preciso nomear responsáveis. Ele citou Benjamin Netanyahu e Donald Trump como “criminosos de guerra”. Sobre Trump, disse que “é um pedófilo”, em referência ao escândalo de Jeffrey Epstein, envolvendo uma rede internacional de tráfico sexual de meninas e mulheres com contatos poderosos, conforme investigações em curso.
Já Netanyahu, segundo Ávila, teve mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), International Court of Justice (ICJ), em novembro de 2024, nos Países Baixos. Ele afirmou que o primeiro-ministro rebateu as acusações e segue descumprindo a ordem judicial, reforçando a sensação de impunidade do direito internacional, como ocorre também com a Rússia.
Ao falar da situação em Gaza, Ávila lembrou a Nakba e disse: “É muito importante que a gente diga sem medo o que essas pessoas são. São os grandes inimigos da paz, da perpetuação da vida neste planeta. E tantas pessoas ao redor do mundo atenderam ao chamado pela Palestina. Não deixar que Gaza seja esquecida. Hoje se completaram sete meses e um dia de um falso cessar-fogo”.
ONU aponta ataques a serviços de saúde
Em relatório recente, a ONU denuncia que a Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizou 38 ataques a atendimentos de saúde na região da Cisjordânia desde janeiro. Ao todo, quatro unidades e 33 ambulâncias teriam sido atingidos.
Em dezembro de 2024, o pediatra Hussam Abu Safiya foi sequestrado pelas forças israelenses. Ele dirigia o Hospital Kamal Adwan, na época o último hospital em funcionamento no norte de Gaza. Agentes israelenses invadiram a unidade, detiveram profissionais de saúde e pacientes e interromperam o atendimento, enquanto o médico estava em luto pela morte do filho, assassinado em um ataque aéreo.
Solidariedade e “transtorno”
Atuante na causa há muitos anos, Mandi Coelho comentou, com ironia, que “uma flotilha levando ajuda humanitária causa grande transtorno”, enquanto gestos de solidariedade a civis seriam proibidos e até criminalizados. Para ela, parte do valor da operação é “escancarar a cumplicidade internacional”, já que embarcações com insumos e matéria-prima para armas de Israel atravessariam o Mar Mediterrâneo com tranquilidade.
Os países que mais contribuíram para o fundo humanitário da Palestina ocupada, criado em 2007, são Finlândia (US$ 5,8 milhões), Bélgica (US$ 4,7 milhões), Irlanda (US$ 4,6 milhões), Reino Unido (US$ 4,2 milhões) e Suécia (US$ 3,7 milhões).


































































































