Araxá (MG) – A 14ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá, o Fliaraxá, teve início nesta quinta-feira, dia 14, em Minas Gerais. O evento traz para o centro do debate o legado de Milton Santos, o geógrafo brasileiro que completaria cem anos em maio. Sob a curadoria de Sérgio Abranches, Afonso Borges, Rafael Nolli e Carlos Vinícius, o festival explora o tema Meu lugar no mundo, inspirado diretamente em uma das reflexões mais célebres do pensador: a ideia de que ninguém analisa o globo a partir de um vácuo, mas sempre a partir de uma localização específica.
A perspectiva de Milton Santos
Nina Santos, neta do geógrafo, aponta que a grande contribuição do avô reside na capacidade de criar novos imaginários. Para ela, a obra de Milton não se limita a uma crítica acadêmica da realidade, mas funciona como um convite constante para que cidadãos interpretem e reconstruam o mundo ao seu redor. Ao discutir a globalização e as desigualdades, o autor incentivava que as pessoas imaginassem possibilidades alternativas, um exercício que Nina considera intrinsecamente ligado à literatura e ao ato de ler.
A trajetória de vida de Milton Santos, que passou pela Bahia, França, Tanzânia e Japão, moldou sua percepção de que o centro do mundo não é um ponto geográfico fixo como Paris ou Nova York. Ele defendia que o deslocamento físico e cultural permite ao indivíduo olhar o planeta sob diversas lentes. Essa descentralização do pensamento é, segundo o Feed Editoria, um dos pilares que sustenta a programação do festival mineiro este ano.
Diálogos com José Eduardo Agualusa
Entre os convidados de destaque está o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que aproveita o evento para lançar a obra Tudo sobre Deus. O livro narra a jornada de um geólogo poeta que, diante da finitude da vida, decide se isolar no deserto da Namíbia. O autor relata que o processo de escrita foi um desafio pessoal, marcado por um período de doença, e que o resultado final flerta intensamente com a poesia. Para Agualusa, a literatura deve ser esse espelho que nos coloca na pele do outro, independentemente da origem geográfica.
O escritor reforça que festivais como o Fliaraxá são vitais para a formação de novos leitores no Brasil. Ele acredita que o livro só ganha vida plena quando encontra seu público, pois cada leitor traz camadas de interpretação que nem o próprio autor imaginou inicialmente. Em sua passagem por Araxá, Agualusa também relembrou a genialidade de João Guimarães Rosa, destacando como o autor brasileiro conseguiu inventar um universo linguístico singular, provando que a literatura local pode alcançar uma dimensão universal e atemporal.
Programação e engajamento
O festival segue com uma agenda intensa até o próximo domingo, dia 17. A lista de atrações inclui nomes como Bianca Santana, Djonga, Leila Ferreira e Marcelino Freire. Além das mesas de debate e lançamentos literários, o evento promove um prêmio de redação e desenho voltado a estudantes do ensino básico e da Educação de Jovens e Adultos. Uma exposição fotográfica, composta por imagens capturadas por jovens de 10 a 18 anos utilizando câmeras analógicas, também integra as atividades, reforçando o tema central da edição.
Ao conectar a geografia crítica de Milton Santos com a sensibilidade literária de autores como Agualusa, o Fliaraxá reafirma sua posição como um espaço de intercâmbio cultural. O Feed Editoria acompanha de perto como esses encontros transformam Araxá em um ponto de convergência para quem busca entender o papel das histórias na construção da identidade e do pertencimento, transformando o espaço físico da cidade em um território de reflexão sobre o que existe e o que ainda pode ser criado.






































































































